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HISTÓRIAS DOS JEDI | CRÍTICA

A mais nova animação da Lucasfilm, Histórias dos Jedi, foca em dois personagens de enorme peso durante as Guerras Clônicas, Conde Dookan e Ahsoka Tano, com seis curtas divididos em três histórias para cada um.

A antologia é fruto de Dave Filoni, que trabalha como produtor executivo da série e escreveu cinco episódios, e Charles Murray (The Clone Wars e Star Wars: Rebels) e Élan Murray foram responsáveis por um. A direção ficou a cargo de Nathaniel Villanueva (The Clone Wars e The Bad Batch), Charles Murray, e Saul Ruiz (The Clone Wars, Star Wars: Rebels e The Bad Batch).

A equipe de criação tem profundas raízes nas animações de Star Wars e se isso não bastasse, caso você assista no idioma original, o elenco de vozes original de The Clone Wars retorna para a animação, acompanhados de nomes como Janina Gavankar (a Iden Versio do game Battlefront II), Micheál Richardson (filho de Liam Neeson) e o próprio Liam Neeson retornando como Qui-Gon Jinn.

Um dos pontos altos da antologia é a animação. O estilo segue com o de The Clone Wars, como era de se esperar se tratando de nomes predominantes da época, mas com os personagens mais jovens ou em modelos atualizados, como Obi-Wan e seu clássico mullet. E além dos personagens, os cenários animados estão impecáveis, planetas e locais conhecidos ou novos estão impecáveis e ajudam na construção da história, afinal segundo o próprio Filoni os curtas são “poemas sinfônicos”, estórias com diálogo mínimo, contada através de imagens.

E através de imagens a história nos foi passada mesmo.

Os três episódios focados em Ahsoka trazem ela bebê, durante seu treinamento Jedi e durante o Império.

O primeiro com a família de Ahsoka é talvez o episódio mais simples e com menos referências. A história traz a mãe da Togruta levando a bebê para uma caçada, aparentemente uma tradição do vilarejo, mas tudo dá errado quando um predador ataca as duas e leva Ahsoka. Ao invés da óbvia saída da criança demonstrar aptidão com a Força derrotando a criatura, Ahsoka é levada e usa a Força para domar o animal e então volta para a família montada, o que leva a anciã do vilarejo a identificá-la como Jedi.

Apesar de adorável, o episódio acaba destoando dos outros (principalmente dos de Dookan, mas já chegamos lá) pelo tom mais doce. Há uma beleza especial em ver Ahsoka pequena com uma família que a ama, e faz você pensar em como os pais sentiram a falta da filha quando ela foi levada pela Ordem Jedi.

Em “A Prática Leva à Perfeição” o fator nostalgia atinge o ápice. Um treino nada convencional de Anakin Skywalker mostra Ahsoka ao longo dos anos aperfeiçoando suas habilidades em rebater tiros de blaster. Os métodos de Anakin, Rex e os clones te transportam de volta para a atmosfera de The Clone Wars e quando você acha que seria só mais um episódio bonitinho vemos Ahsoka e Rex prestes a enfrentar o batalhão de clones na Venator após a implementação da Ordem 66.

O episódio que talvez cause certo furor entre aqueles que acompanham o universo expandido será o “Decisão”. O terceiro curta focado em Ahsoka a traz participando do funeral de Padmé, onde encontra Bail Organa que lhe entrega um comunicador em caso de emergência, ou se ela estiver disposta a fazer algo contra o Império.

O que acontece é que temos um livro (que já foi ignorado em The Clone Wars) sobre esse período envolvendo Ahsoka. O livro que tem como nome “Ahsoka” traz ela um ano após a implementação do Império, lá ela vai até um mundo agrícola e se envolve com os moradores, o Império chega até lá e ela é descoberta, o Inquisidor Sexto Irmão vai até lá e ela o derrota, pedindo ajuda para Bail Organa para evacuar a população para Alderaan.

O episódio segue basicamente essa fórmula, apenas não trazendo o Sexto Irmão e sim um outro Inquisidor, e o encontro entre Bail e Ahsoka antes no funeral é acrescentado. Mas apesar de poder ser classificado como uma adaptação, se preparem para reclamações. Mas retcons à parte, o episódio é muito bom e mostra como o Império recompensa seus “cidadãos de bem”.

As histórias da Ahsoka, apesar de ótimas, pouco acrescentam à personagem. Elas se apegam mais a um apelo nostálgico do que uma adição realmente impactante para a trajetória da personagem, sem contar nas mudanças em relação a coisas já estabelecidas. É sempre bom ver mais da personagem, porém com uma série live action focada nela prevista para o ano que vem fica a questão do quanto é necessário mais materiais voltados para a Ahsoka.

Mas então chegamos ao auge dessa antologia com os três curtas de Dookan, contando também três fases de sua vida como Jedi até sua queda.

No episódio “Justiça” é impossível não criar um paralelo com nossa realidade. Dookan e seu então padawan Qui-Gon Jinn vão até um planeta por conta do sequestro do filho do Senador. A população o sequestrou porque o Senador basicamente abandonou o planeta. Uma das falas mais importantes, ao meu ver, é quando Qui-Gon Jinn pergunta a uma das mulheres do planeta porque eles não só elegem outro senador, e ela muito paciente responde que as coisas não são tão simples. Para um Jedi, vivendo em Coruscant e não participando ativamente da vida do cidadão comum pode parecer fácil, mas na prática todos nós sabemos como é difícil escolher e eleger bons governantes.

O segundo episódio de Dookan também tem um cunho mais político e traz uma investigação dele e Mace Windu em Raxus Secundus (planeta que viria a ser a capital dos Separatistas). Uma Mestre Jedi, Katri, foi assassinada e os dois Jedi são enviados até lá apenas para colher informações e levar o corpo dela para o Templo em Coruscant, mas Dookan decide ir a fundo e descobrir o que houve.

Acontece que o Senador Larik de Raxus também não é flor que se cheire e os guardas do planeta conspiraram para matar a Jedi e obrigar Larik a fazer seu trabalho corretamente (na visão deles, pelo menos). E resolvida a situação os dois Jedi voltam para Coruscant, onde o funeral de Katri acontece e Dookan descobre que Windu foi apontado como substituto dela no Conselho Jedi, o que o incomoda pois o instinto de Mace era seguir as ordens do Conselho cegamente.

E em um episódio primoroso temos mais do processo da queda de Dookan. Ao longo dos três curtas vemos aos poucos o Mestre Jedi se decepcionar com a Ordem Jedi e a República. Senadores corruptos e um sistema falho o fizeram perder a fé na República, uma pré-disposição a respostas mais severas (como quase matar o Senador enforcado com a Força), Jedi cada vez mais levados pelo ego e a aproximação deles com o governo o fizeram desacreditar da Ordem Jedi.

Mas nada foi tão profundo para Dookan quanto à descrença do Conselho Jedi em Qui-Gon Jinn, que após seu encontro com Maul em Tatooine alertou os Jedi do retorno dos Sith, só para ser ignorado pelos membros. E em uma breve conversa com o antigo aprendiz e Yaddle vemos o quanto ele se sente magoado por isso (mesmo já trabalhando com Darth Sidious).

E é após a morte de Qui-Gon que ele realmente perde a fé na Ordem. Qui-Gon morre pelas mãos do Sith que tanto alertou e nada foi feito.

Yaddle (com a voz de Bryce Dallas Howard no original) tenta ajudar Dookan, mas sua atitude a deixa desconfiada e ela o segue, só para descobrir seu conluio com Sidious. Nós nunca soubemos o que houve com Yaddle e descobrir que ela foi morta por Dookan ao descobrir seus segredos foi devastador, ainda mais com todo o peso criado pelo episódio que mesmo em poucos minutos trouxe um dos melhores conteúdos da saga.

A antologia Histórias dos Jedi se mostrou um bom produto para se explorar pontos da vida dos Jedi que conhecemos trazendo aventuras ou complementos, no futuro, mais personagens e épocas podem ser explorados (Alta República, talvez?).

Todos os episódios de Histórias dos Jedi estão disponíveis no Disney+.