O problema com Rey ser uma “ninguém” – Uma análise narrativa

O problema com Rey ser uma “ninguém” – Uma análise narrativa

Nos meses anteriores ao lançamento de Os Últimos Jedi, os fãs de Star Wars imaginaram se o filme iria dar uma resposta clara sobre uma das questões mais inquietantes de O Despertar da Força: Quem é Rey, e quais são as implicações, se houver, de seu parentesco na história? O Episódio VIII aparentemente respondeu essa questão, a colocando como uma Rey que não vem de nenhum parentesco importante na saga. Muitos fãs comemoraram, por muitas razões, e, independente disso, é inegável que Rey continuará sendo uma das mais amadas personagens de Star Wars e que tem muito potencial em termos de narrativa no Episódio IX.

Mesmo assim, nenhuma história – e particularmente nenhuma continuação – contém somente um caminho. Para Rey, como a Jedi e herói da Trilogia Sequel na episódica saga Skywalker, como fãs, naturalmente, consideramos a possibilidade de que sua personagem pudesse ser parte e parcela do drama familiar, não sendo só uma mera participante. Nos dois anos entre os filmes, analisamos as pistas em O Despertar da Força e especulamos o quão emocionante, ou não, seria em Os Últimos Jedi.

Os segredos de Os Últimos Jedi agora foram revelados aos fãs, e suas decisões de narrativa Rey podem ser medidos em duas métricas: os objetivos dos criadores de Os Últimos Jedi, e os temas de Star Wars como um todo. Em ambos os critérios, a escolha de Rey ser uma “ninguém” não tem o mesmo poder de impacto na personagem como teria se Rey fosse uma Skywalker, por exemplo, e vamos provar isso neste artigo.

Os objetivos de Rian Johnson

Falando de seu processo criativo ao escrever Os Últimos Jedi, o diretor e escritor Rian Johnson nos deu uma descrição consistente de sua meta e de como ele começou a desenvolvê-la. Após ler o roteiro de O Despertar da Força e assim conhecendo os mundos e os arcos dos personagens no Episódio VII, o que seria a base para fazê-los seguir em frente no Episódio VIII, Johnson começou por fazer uma lista dos personagens e assim identificar o maior desafio que cada um poderia enfrentar no filme.

Vamos perceber qual é a maior dificuldade que eles poderiam enfrentar agora — vamos jogar isso neles e ver como eles se saem.” (Fonte: USA Today)

“Qual é a coisa mais difícil que Rey poderia ouvir? É isso que você procura quando quer desafiar seus personagens.” (Fonte: Entertainment Weekly)

“O fato de que tive liberdade para perceber o que isso significaria para a história, fez com que eu pudesse perseber qual seria a resposta mais dramática pra essa pergunta.” (Fonte: Slashfilm)

A mais aparente motivação de Rey em O Despertar da Força é o desejo de se reunir com sua família. Quando a vemos pela primeira vez, percebemos que essa tem sido a sua motivação por anos: Rey marca na parede de seu AT-AT transformado em casa por cada dia que ela espera para sua família retornar.

Essa motivação define seu caráter: Ela explica a BB-8 que é acostumada com esperar; Ela diz a Finn que ela precisa voltar a Jakku depois de entregar o dróide à Resistência; Ela não aceita a oferta de emprego de Han Solo por que ela já estava longe tempo demais; Ela rejeita o conselho de Maz Kanata sobre desenvolver sua conexão com a Força e deixar Jakku pra trás; e Kylo Ren sente sua solidão ao entrar em sua mente.

Se fizermos uma análise sem considerarmos seus paralelos com a família Skywalker, Rian poderia ter feito uma história que não colocasse seu parentesco no centro da narrativa, deixando claro que, independente disso, ela achou família na Resistência. Mas não foi isso o que ele fez. Na verdade, Os Últimos Jedi constrói a personagem de tal forma que seu apego à família se torna uma brecha pra que Rey seja tentada pelo Lado Sombrio.

Quando Luke ensina Rey a meditar, ela sente que a caverna escura embaixo da ilha tem as respostas que ela procura; Luke imediatamente reafirma que a caverna ofereceu algo que ela queria e que ela nem tentou se conter. Depois de Kylo colocar dúvidas em Rey de que Luke tinha escondido a verdade sobre a noite em que ele destruiu o templo de treinamento, Rey escolhe visitar a caverna em pessoa, mesmo sabendo que era sombria e perigosa tanto espiritualmente quanto na vida real.

Na caverna dos espelhos, ela não pede pra ter um mestre, ou respostas sobre seu futuro, ela simplesmente pede para ver seus pais. Ela então conta a Kylo que ela não obteve a resposta, e que ela nunca se sentiu tão sozinha (já citamos no dossiê o que achamos que a visão da caverna significa). Essa solidão cria a vulnerabilidade emocional que Kylo explora, afinal, por sentir o mesmo (mesmo sem motivo), ele sabe como isso funciona. Isso e as visões incompletas que eles têm ao tocar mãos, leva Rey a acreditar que o conflito que ele sente é suficiente pra sua redenção, a ponto de fazê-la sair da ilha para tentar “salvá-lo”

Após a morte de Snoke, Kylo imita as táticas de manipulação emocional de seu antigo mestre, usando os medos de Rey sobre seus pais – e a visão que aparentemente o mostrou que eles são meros mendigos que a venderam por bebida – para tentar convencê-la de que sua vida não terá nenhum sentido ou significado a não ser que ela se junte a ele e assim ganhe importância por associação.

Assim, Os Últimos Jedi continua o que O Despertar da Força começou ao definir as motivações e o caráter de Rey em grande parte por encontrar seus pais, aqueles que ela não se lembra, a ponto de entrar numa caverna sombria para tentar ver seus rostos. Se essa foi a escolha de Johnson, então o desafio mais difícil que Rey deveria enfrentar não é a revelação de que ela é uma “ninguém”, mas algo totalmente diferente. A impressão que dá é que ele se preocupou mais com o que seria mais difícil para os fãs ouvirem do que no que realmente afetaria Rey como personagem.

A maldita família Skywalker

Já citamos isso no dossiê, principalmente na análise contextual, mas agora vamos olhar para isso pelo ponto de vista do que seria mais desafiante para Rey, algo que Rian Johnson estava tentando alcançar.

Em O Despertar da Força, Rey tem uma atitude otimista em relação a encontrar sua família. Ela espera isso ansiosamente. Ela têm expectativas positivas quanto a isso; Ela sorri para BB-8 quando ela diz: “Eles vão voltar. Algum dia.” Nada em Rey sugere que ela possa achar que os laços familiares sejam uma maldição ao invés de um presente.

Por essa perspectiva, o desafio mais difícil que ela poderia enfrentar sua descobrir que sua família poderia colocar terríveis fardos em seus ombros. Se Rey descobrisse em Os Últimos Jedi que ela é uma Skywalker, as consequências seriam profundas. Seu avô seria, em suas próprias palavras, “o homem mais odiado da galáxia” – um senhor do mal que já foi herói das Guerras Clônicas e chamado de Escolhido, e que em sua raiva matou sua avó, acabou com a antiga Ordem Jedi, e que ajudou o tirânico Império reinasse na galáxia com punhos de ferro por duas décadas, e cuja redenção é pouco conhecida. Sua tia é a líder da Resistência que falhou ao não conseguir prevenir que a Primeira Ordem destruísse a Nova República, e seu tio, um quase arruinado contrabandista. Seu primo quer ser um novo Vader: caiu no Lado Sombrio, matou a nova geração de Jedi, e ajudou um regime ressurgente com fins de dominação galáctica, e ainda é um parricida (Uma coisa é ver um estranho monstruoso matar seu próprio pai, um homem de idade que foi seu amigo por um tempo e até mesmo meio que um mentor. Outra coisa é descobrir que era o seu primo matando seu tio). E seu pai, finalmente, é uma lenda viva, aquele que derrotou o Império, mas que também falhou como Mestre Jedi. Se parar pra pensar, você não iria querer fazer parte dessa família.

A revelação também afetaria o futuro de Rey. Como as pessoas fora de seu círculo de amizade a veriam, sabendo que sua linhagem inclui Darth Vader e Kylo Ren? Ela seria confiável? Ela confiaria em si mesma? No livro Legado de Sangue, vemos que Leia perdeu tudo no Senado por causa disso, e nem sua reputação ilibada adiantou. Rey Skywalker iria se ver debaixo da sombra das tragédias da família que poderia não só mudar sua visão sobre o passado, mas também seu futuro (no nosso dossiê, vemos como isso afeta o comportamento de Luke em relação à Rey). A família se tornaria não uma fonte de força, mas algo que ela tem que ultrapassar. Não se torna um motivo de orgulho, mas uma sombra que a cobre, aos seus próprios olhos ou aos olhos dos outros.

E aí? Esse ciclo vicioso vai ser quebrado, ou vai continuar? A tragédia da família vai afetar mais uma pessoa, ou ela será forte o suficiente para não deixar isso a definir? Ver Rey Skywalker ter que confrontar essas questões seria a coisa mais desafiadora que ela poderia enfrentar, o que a transformaria em uma heroína que inspira força, coragem e empoderamento para quebrar o ciclo e não deixar que isso a defina.

Ao invés disso, Rey aprende que sua família não vai ter nenhum impacto na vida dela. Seu parentesco não tem significado. As escolhas são dela, mas não por conta do que ela teve que passar para adquirir este poder, como muitas minorias na vida real lutam para terem suas vozes ouvidas, mas meramente porque elas são. Não há nenhuma consequência, nem ramificações, nem fardos vindos de sua família. Ela é simplesmente livre pra viver a sua vida, sem problemas pra ultrapassar nem riscos para correr.

Com a Lucasfilm tendo consistentemente salientado que a saga Skywalker, e portanto a trilogia sequel, são sobre família, e as motivações de Rey nos dois filmes tendo sido suas expectativas em torno da família que a teria deixado em Jakku, Rey termina o Episódio VIII não tendo nenhuma parte nesse tema, ou seja, o tema “Família” não fazendo nenhuma diferença em seu arco.

E pare pra pensar. O que seria mais difícil pra ela ouvir de Kylo? Que ela é um nada e que sua vida só terá sentido se ela se juntar a ele? Ou que ele aposta que ela nunca vai conseguir quebrar o ciclo e vai acabar indo para o Lado Sombrio assim como ele foi?

A auto-confiança de uma “ninguém”

Ao invés de fazer com que a verdade sobre a família de Rey seja o desafio mais assustador, colocando à prova suas próprias motivações e a construção de sua identidade, Os Últimos Jedi abruptamente muda a questão interna de Rey para uma dúvida: se ela é digna de ser uma heroína nesta guerra nas estrelas. Rian Johnson disse o seguinte em entrevistas:

“A coisa mais fácil pra Rey e pra audiência ouvir é de que, “Ah, você é filha de fulano e siclano”. Isso seria a realização de um desejo e iria entregar a ela um lugar na história em uma bandeja de prata. […] A coisa mais difícil pra ela ouvir é de que ela não vai ter essa resposta fácil. Não só isso, mas Kylo vai usar o fato de que você não consegue essa resposta para tentar te enfraquecer e te puxar pro lado dele. Você vai ter que ter forças pra se levantar e se definir nessa história.” (Fonte: Entertainment Weekly)

 “Desejo realizado. É tipo, ‘Legal! Isso é quem eu sou. É isso.’” (Fonte: CinemaBlend)

“A coisa mais difícil de ouvir, que ela não quer ouvir e talvez nós também não queremos, é de que não, isso não vai te definir.” (Fonte: Slashfilm)

Bom, sabemos que ser uma Skywalker não é um “desejo realizado”, e é dificilmente algo a ser celebrado ou que tenha um impacto positivo na vida. Mas, particularmente, não sei como Rian pôde achar que descobrir ser de uma família importante vá defini-la, sendo que fazê-la ultrapassar essa “sombra” seria mostrar o quão forte Rey é. Mas parece que ele queria fazer algo diferente.

Rey verbaliza essa crise de identidade ao dizer a Luke que precisa de alguém pra mostrar seu lugar nisso tudo. Depois da luta na chuva, ela estende o sabre Skywalker a Luke uma segunda vez, implorando pra que pegasse a arma e voltasse a ser o legendário Jedi que salvou a galáxia. Quando ele recusa, ela diz que a redenção de Ben Solo é “nossa última esperança.” A implicação, então, é de que Rey não acredita que ela mesma possa ser uma heroína nessa história. E a preocupação é válida. Ela não quer ter que “se meter” em uma guerra de uma família que, supostamente, não é a sua.

O problema é que a aparente falta de auto-confiança de Rey não é consistente com a caracterização dela em O Despertar da Força, nem com as suas experiências de conflito (ela praticamente é obrigada a ser uma heroína, salvando a sucata que recolhe pra sobreviver), e nem com os mitos e histórias da galáxia que sabemos que ela ouviu falar.

E pior, nada em O Despertar da Força nos dá nenhuma razão pra acreditar que há alguma dúvida no coração de Rey em termos de fazer a coisa certa. Ela salva BB-8 de Teedo não por uma recompensa, mas simplesmente por achar que deve. Quando ela descobre que BB-8 carrega informação vital para a Resistência, ela imediatamente dá um jeito para levá-lo à sua base – ainda que tendo que deixar Jakku. Ela rapidamente aceita desconsertar a Falcon para envenenar possíveis stormtroopers da Primeira Ordem que estivessem chegando. Ela salva Finn dos rathtars. Ela ouve, atentamente, a explicação de Maz sobre a luta entre a Luz e a Escuridão, agora representada pela Primeira Ordem. Ela insiste pra que Finn não abandone a missão de devolver BB-8 à Resistência.

A única vez que Rey hesita é quando ela experiencia o Forceback, e quando, depois de Maz explicá-la sobre o sabre de luz e a Força, ela foge para a floresta de Takodana. Mas quando a Primeira Ordem invade o castelo de Maz, Rey imediatamente corre pra ajudar seus amigos, atirando em stormtroopers antes de ser capturado por Kylo Ren. Depois de se soltar, ela abre os portões pra que Han e Chewbacca possam plantar as bombas no oscilador. Na floresta nevada da Base Starkiller, ela pega uma arma que nunca tinha usado antes, e com seus conhecimentos de luta e, claro, com a ajuda da Força, vence Kylo. E ela deixa Jakku completamente, e os amigos da Resistência, para encontrar Luke Skywalker. Em suma, ela sempre foi a heroína.

Então, apesar de esperar sua família, Rey não tem nenhum motivo pra pensar que uma conexão com uma família importante é necessário para ser uma heroína neste conflito. BB-8 é o dróide de Poe Dameron, que é tratado como filho por Leia mas não tem o mesmo sangue. Finn é um desertor que nunca conheceu sua família. Maz é uma figura que tem séculos de vida e sua sabedoria não precisa de nenhuma referência de linhagem. Para Rey, Luke Skywalker é um mito, mas ela nunca o reconheceria se ele andasse coletando sucata em Jakku (o que de fato acontece no livro cânone Legends of Luke Skywalker). E Han Solo é mais famoso como contrabandista do que um general da Rebellion. Rey também já ouviu falar dos Jedi e da Força, o qual Han valida ao falar com eles sobre Luke na Falcon. E entre os Jedi conhecidos dos fãs, até agora somente Luke e Anakin compartilham do mesmo sangue.

E ainda assim, após a morte de Snoke em The Last Jedi, Kylo usa a aparente falta de confiança dela. Depois de alguma insistência, ela conta a única história de que se lembra: De que seus pais eram “ninguém”. Ele então declara que ela “não é nada” e “não tem nenhum lugar nessa história” a não ser que ela se junte a ele.

Ela, obviamente, se recusa a isso. Rey é forte o suficiente pra não cair nessa história. Ela pega o sabre quebrado, e sai da nave de Snoke pra ajudar a Resistência em Crait.

Isso nos trás à interpretação mais comum: De que Rey percebe que é uma pessoa livre pra fazer suas próprias escolhas e lidar com suas próprias falhas. Mas, o problema narrativo é que ela não aprendeu efetivamente essa lição. Ela acredita que sua família não é importante, e que seus pais estão mortos. Simplesmente as circunstâncias definiram Rey como uma pessoa autônoma. Ela não teve que tomar essa decisão pra crescer neste ponto.

Por outro lado, se seu arco tivesse revelado seu total potencial ao revelar Rey como uma Skywalker, então esse mesmo momento em seu desenvolvimento como personagem teria sido muito mais poderoso. Com todos os fardos daquela linhagem sobre ela, ela seria empoderada a escolher ser uma pessoa que não é definida pelo legado de sua família.

Mesmo assim, por dois filmes, a heroína não pôde nem ter um sobrenome, nem autonomia para escolher sua própria história (já que, aparentemente, ela foi simplesmente sorteada pela Força pra estar nessa história). Se ela é uma “ninguém”, um sobrenome lhe daria uma identidade. E ver Rey Skywalker escolher seu próprio caminho, apesar de tudo de ruim que a família Skywalker possa representar para a galáxia muito distante, seria uma mensagem muito mais poderosa.

O Despertar da Força estabeleceu Rey como uma mulher confiante que espera ansiosamente por sua família. Se Rey é uma “ninguém”, rejeitar a oferta de Kylo para se manter auto-confiante não é um desafio tão grande (apesar de Rey ter ficado triste por Ben não ter se redimido, afinal, ela tem um coração compassivo, e ela também queria provar para Luke que estava certa). Se ela tivesse descoberto logo em Os Últimos Jedi que ela é uma Skywalker, o desafio emocional seria muito maior.

A jornada de Rey é uma história Skywalker

Muitos que concordam com Rey ser uma “ninguém” dizem que a mensagem é de que Rey pode ser a heroína de sua própria história, ao invés de ser definida pela história dos Skywalkers. O problema narrativo com esse ponto de vista é que a jornada de Rey já é definida inteiramente em conjunção com a saga Skywalker e com seus personagens familiares. Rey não possui, em nenhum ponto do Episódio VII ou VIII, um arco diferente e que não seja narrativamente moldado pela sua relação com os Skywalkers.

Em O Despertar da Força, a jornada de Rey começa por causa de Leia, que enviou Poe a Jakku pra receber o mapa para Luke que estava com Lor San Tekka. Os eventos na vila resultam em Rey conhecendo BB-8. Com BB-8 ao seu lado, ela conhece Finn, e então foge da Primeira Ordem na Falcon, deixando Jakku mesmo com seu desejo de esperar sua família. A Falcon leva Rey direto ao marido de Leia, Han, que confirma as histórias que Rey ouviu sobre a Força e os Jedi e a leva até Maz pra ajudar a levar BB-8 até a Resistência. Em Takodana a Força a leva até o sabre de Luke, tendo visões de coisas relacionadas aos Skywalkers e ao seu próprio passado. Após o ataque da Primeira Ordem ela é levada por outro Skywalker, Kylo Ren. Ela é presa e interrogada por ele. Depois de derrotar Kylo em combate, Rey conhece Leia em pessoa na base da Resistência, que a “abençoa” com um “que a Força esteja com você”. O filme termina com Rey encontrando Luke, entregando o sabre Skywalker a ele.

Em Os Últimos Jedi, a caracterização inteira de Rey é justaposta entre dois Skywalkers, Luke e Kylo. Isso não foi acidente: no livro Art of The Last Jedi, Rian Johnson especificamente descreve sua história como um “triângulo” entre os três personagens. E o filme viaja nessa ideia. Tudo sobre as interações de Rey com Luke vêm da saga Skywalker, sendo uma das cenas praticamente uma cópia de O Retorno de Jedi. Vamos detalhar isso melhor no dossiê, mas você deve saber do que estamos falando.

Não é que Rey não é importante nessa história, é que a história não é dela. Ela não é a herói de sua própria história, mas sim de uma outra história, a história dos Skywalkers. Ela é garota que sem querer se vê “se metendo” no drama dos Skywalkers.

A heroína de uma dinastia

Outro ponto daqueles que defendem o fato de Rey ser uma “ninguém” é de que isso valida a mensagem de que qualquer um pode ser um herói, não sendo necessária uma linhagem famosa pra ser um Jedi. Só que há dois problemas com essa interpretação: Primeiro, isso já foi mostrado múltiplas vezes em Star Wars e em outras franquias, e a história de Rey não precisava reforçar isso. Segundo, colocar Rey dentro da saga Skywalker mas privá-la de um papel familiar nesse conflito, seria uma bela oportunidade perdida de mostrar essa jovem mulher se tornando o melhor que a família pode oferecer.

Star Wars já tem muitos exemplos de que qualquer um pode ser um herói. Em Rogue One, Jyn e Cassian são pessoas comuns que se tornam mártires da Rebelião. Em Star Wars Rebels, Ezra Bridger é um garoto de rua e filho de pais ordinários que se torna Jedi. Nas Prequels, Padmé é uma garota ordinária que foi eleita rainha em Naboo. Shmi, mãe de Anakin, O Escolhido concebido pela Força, era uma escrava. Na Trilogia Original, só Leia era uma princesa, e antes de Luke descobrir seu parentesco, ele era um fazendeiro. Até na Trilogia Sequel, dos outros heróis principais, só Poe e Rose têm sobrenome, e mesmo assim eles não vêm de famílias importantes. Não há nenhum perigo dessa mensagem não ser passada se Rey for uma Skywalker (aliás, o próprio passado de sucateira já caberia nessa mensagem).

Além disso, a franquia Star Wars sempre deixou claro que a vasta maioria dos Jedi não eram produtos de parentescos fortes na Força. Nem Kanan nem Ezra em Rebels herdaram seus poderes Jedi. Entre todos os Jedi vistos na Trilogia Prequel e em The Clone Wars, quase nenhum herdou seu poder na Força. Obi-Wan Kenobi, talvez o maior Jedi daquela era, foi encontrado quando criança com pais ordinários e foi levado até o templo em Coruscant pra ser treinado – e tanto The Clone Wars quanto Star Wars Rebels incluíram histórias pra mostrar essa dinâmica: os Jedi e os Sith entendem que qualquer criança pode nascer com esse dom, e que elas devem ser treinadas pra mostrar seu potencial completo. Então, o cânone de Star Wars é bem claro em dizer que herdar um poder na Força é a exceção da regra. Nada disso perderia seu valor se Rey tivesse sido revelada como uma Skywalker. E pior, ser uma “ninguém” só faz com que ela seja mais do mesmo.

E os episódios foram feitos para serem diferentes. Os filmes spin-offs acompanham o letreiro “Uma história Star Wars” justamente para se diferenciar deles. E o conjunto dos episódios é chamado pelo marketing da Lucasfilm de “saga Skywalker”.

“Em Star Wars: Os Últimos Jedi, a saga Skywalker continua com os heróis de O Despertar da Força se juntam à lendas galácticas em uma aventura épica […]” (Sinopse de Os Últimos Jedi – Fonte: starwars.com)

“[…] Nessa trilogia, que é separada da episódica saga Skywalker, […]” (Anúncio da trilogia spin-off de Rian Johnson – Fonte: starwars.com)

O Despertar da Força Os Últimos Jedi são, por definição, parte da história de uma dinastia. Com base no que George Lucas estabeleceu nas trilogias Original e Prequel, ser uma novela espacial sobre uma dinastia poderosa é o coração de Star Wars.

Depois do Episódio IX, a franquia vai ter muitas oportunidades de mostrar pessoas ordinárias se tornando heróis. Mas não o poder narrativo – já que estamos continuando uma saga construída durante 40 anos em 6 filmes – de mostrar uma jovem mulher carregando a tocha do legado bom de sua família para a próxima geração.

Pablo Hidalgo recentemente tuitou que a diferença entre as sequels e as outras trilogias é de que é sobre “uma geração tendo que lidar com as ações das anteriores”. Isso não seria mais poderoso se a heroína tivesse que lidar com as ações de sua própria família do que com a de estranhos? Não seria mais interessante se o simbolismo da quebra do sabre Skywalker fosse feito entre os dois descendentes de Anakin, o filho da filha e a filha do filho, ao invés de só um descendente com seu adversário sendo uma estranha?

Imagine como seria se a audiência visse Rey Skywalker, escolhendo por si mesma não ser definida pela sombra de Vader, e, sem saber, ser a representante do Escolhido, do Jedi que um dia foi herói das Guerras Clônicas, e que deixou a luz brilhar em seu coração ao ser redimido. Ver Rey Skywalker triunfante, e não meramente Kylo Ren derrotado, é um fim digno para a saga Skywalker.

Mas nem tudo está perdido. Rian Johnson deixou brechas (talvez intencionalmente) em Os Últimos Jedi para que Rey Skywalker aconteça, e estamos analisando “tim-tim por tim-tim” do ponto de vista temático, contextual e narrativo, culminando com uma análise completa do filme com diálogos e cenas. Se quer acompanhar nosso dossiê, comece por aqui.

Fonte: FANgirl Blog