Cronica de Vos | O Grande Cisma de Mandalore: De Guerreiros a Pacifistas (e a Bagunça que Amamos)

Cronica de Vos | O Grande Cisma de Mandalore: De Guerreiros a Pacifistas (e a Bagunça que Amamos)

Se você acompanhava a saga nos anos 90, sabe que ser fã de Star Wars era um exercício constante de arqueologia literária. Vivíamos no que hoje chamamos carinhosamente de “Universo Expandido” (ou Legends, para os íntimos). Naquela época, a gente tinha uma certeza absoluta, quase religiosa: os Mandalorianos eram os maiores guerreiros da galáxia, tribais, ferozes e sempre prontos para o combate. Livros como Republic Commando, da Karen Traviss, eram o nosso catecismo, com direito a idioma próprio (Mando’a) e um código de honra que faria qualquer espartano pedir arrego.

Aí veio o dia 29 de janeiro de 2010. E, meus amigos, o “choque cultural” foi real.

George Lucas, em sua fase mais “quero colocar a mão na massa” durante a animação The Clone Wars, decidiu que era hora de visitar Mandalore. O resultado? O episódio “The Mandalore Plot”. Em vez de mercenários cobertos de beskar e cicatrizes, fomos apresentados à Duquesa Satine Kryze e seu governo… pacifista. Sim, você leu certo. O planeta dos guerreiros agora era habitado por diplomatas em cidades de vidro, que repudiaram a violência e viviam em um cubismo zen.

Lembro de fechar o laptop e pensar: “Ué, mudaram o canal?”. Foi o primeiro grande “retcon” que realmente doeu na espinha do fandom. De um lado, tínhamos o cânone estabelecido em décadas de livros; do outro, a visão atualizada do Criador. O clima ficou tão tenso (tinha até fã ameaçando este que vos escreve) que a própria Karen Traviss pediu o boné e saiu da franquia, deixando histórias inacabadas porque, segundo ela, não dava mais para conciliar a lógica dos seus guerreiros com os novos “Mandalorianos da Paz”.

Por alguns anos, a cronologia de Mandalore parecia um quebra-cabeça cujas peças tinham sido cortadas por um sabre de luz cego. O Universo Expandido foi jogado para o escanteio do Legends pela Disney em 2014, e parecia que aquela rica cultura marcial tinha se perdido para sempre em prol de uma narrativa política mais limpa.

Mas a Força, como sabemos, gosta de equilíbrio.

Anos depois, Dave Filoni e Jon Favreau (que, curiosamente, deu voz ao terrorista Pre Vizsla lá em 2010) operaram um milagre com The Mandalorian. Eles não escolheram um lado; eles abraçaram a confusão. Ao apresentar Din Djarin como parte de uma seita radical (os Filhos do Olho), eles trouxeram de volta a reverência mística pela armadura e pelo “Caminho”. Ao mesmo tempo, mantiveram o passado político de Bo-Katan e Satine.

Hoje, olhando para trás, aquele “erro” de continuidade de 2010 acabou sendo a melhor coisa que aconteceu para a mitologia da franquia. O conflito entre o “Velho Jeito” e a “Nova Mandalore” criou a base para a jornada de redenção de um povo inteiro. Passamos de uma cultura unidimensional de “caras de armadura que atiram bem” para uma sociedade complexa, fraturada e profundamente humana.

No fim das contas, a gente reclama das mudanças, mas é essa capacidade de se reinventar que mantém o blog ativo e a nossa paixão acesa há tantas décadas. Mesmo que, para isso, a gente tenha que aceitar um pouco de pacifismo no meio da guerra.


A história de Mandalore é o reflexo perfeito do próprio Star Wars: uma colcha de retalhos que, apesar das costuras aparentes, forma uma imagem épica. Deixamos de ser apenas leitores de manuais de combate para sermos testemunhas de uma reconstrução cultural. E, sinceramente? É muito mais divertido assim.