Crônicas de Vos | Reflexões de um Domingo Sobre Luke Skywalker

Crônicas de Vos | Reflexões de um Domingo Sobre Luke Skywalker

Nesta manhã tranquila de domingo, enquanto a xícara de café esfria lentamente sobre a mesa e a Maya cochila sossegada aqui aos meus pés, me peguei refletindo sobre a inevitável passagem do tempo. Já se vão 11 anos desde que a Sociedade Jedi deu seus primeiros passos na internet. Mais de uma década compartilhando histórias de uma galáxia muito, muito distante. E se existe um assunto capaz de inflamar nossas rodas de conversa até hoje — e que não envelhece um único dia —, esse assunto é o destino de Luke Skywalker.

É inegável que Os Últimos Jedi carrega um fardo pesado. Quando o filme estreou, a desilusão de parte do público foi quase palpável. Em vez do Mestre Jedi inabalável e grandioso que muitos de nós passamos anos imaginando nas páginas dos livros e quadrinhos, encontramos um eremita cínico. Um homem amargurado pelo fracasso de seu Templo, escondido nas rochas úmidas de Ahch-To. Para completar a ferida, o vimos partir e se unir à Força, aparentemente encerrando qualquer chance de vermos o Luke “clássico” liderando a nova geração nos cinemas.

Mas o universo tem seus truques. Para a surpresa geral, a televisão nos devolveu a esperança.

Foi impossível não sentir o coração acelerar com aquele final espetacular da segunda temporada de The Mandalorian. O sabre verde cortando a escuridão, a luva preta, a postura heroica. Era o fan service em seu estado mais puro e arrebatador. Depois, em O Livro de Boba Fett, a Lucasfilm foi além, dando a Luke um tempo de tela substancial, treinando Grogu e recriando os ecos mágicos de seu próprio treinamento com Yoda em O Império Contra-Ataca.

À primeira vista, parecia óbvio. A televisão havia “consertado” Luke Skywalker. Mas, à medida que a empolgação inicial baixava, uma verdade silenciosa e um tanto indigesta começou a se acomodar: o Luke de Os Últimos Jedi ainda é, ironicamente, a melhor versão do personagem desde os anos 80.

A resposta para isso repousa naquilo que nos faz humanos. A versão de Luke nas telinhas, apesar do visual nostálgico, sofre do incômodo efeito do uncanny valley (o “vale da estranheza”). Ele não parece um personagem tridimensional, parece um avatar. Suas feições rejuvenescidas digitalmente o deixaram rígido, estático, quase desprovido daquela faísca de emoção tão característica de sua linhagem.

Basta lembrar da cena de partir o coração em que Ahsoka Tano menciona o quanto ele se parece com o pai, Anakin. O que recebemos em troca? Um olhar apático. Nenhuma reação genuína. O Luke da televisão é um monumento vazio.

Os Últimos Jedi, por outro lado, mergulhou de cabeça nas falhas. Você pode detestar as escolhas do roteiro, mas o Luke de Ahch-To era um personagem pulsante, dinâmico e profundamente trágico. Ali havia o peso do luto, o desespero e, eventualmente, a redenção suprema. Havia a alma de Mark Hamill em cada fala e em cada olhar de arrependimento.

No fim das contas, enquanto observo o domingo passar calmo pela janela, a conclusão a que chego é agridoce. Nenhum desses três projetos entregou o que Mark Hamill e seu icônico herói realmente mereciam. O cinema desperdiçou a chance de nos mostrar um Luke envelhecido, heroico e complexo sem restrições. As séries de TV encurralaram a si mesmas ao se recusarem a reescalar um novo ator para o papel, prendendo o Mestre Jedi a uma tecnologia engessada.

Nós e Mark Hamill merecíamos um épico irretocável. Contudo, entre o boneco de cera perfeito da TV e o mestre imperfeito de carne e osso do cinema, a humanidade falha de Os Últimos Jedi ainda fala mais alto.

Que a Força nos acompanhe para o início de mais uma semana.