Em 1977, o jovem cineasta George Lucas lançou a ópera espacial Star Wars. Apesar dos bastidores conturbados – marcados por rigorosas restrições sindicais britânicas, brincadeiras do elenco, atritos com a equipe técnica e a forte pressão do estúdio para a conclusão da obra –, o filme se tornou um fenômeno de bilheteria, conquistou seis estatuetas do Oscar e gerou um impacto cultural que perdura até hoje.
À primeira vista, o filme parece uma história boba. No documentário Império dos Sonhos: A História da Trilogia Star Wars (Empire of Dreams: The Story of the Star Wars Trilogy, 2004), um dos técnicos da equipe inglesa pergunta que filme era aquele, com “tantas babaquices e coisas sem sentido”. Naves, sabres de luz, armas laser que só provocam queimaduras (para não chocar o público infantil), uma princesa rebelde e corajosa, um jovem fazendeiro dos confins da galáxia que sonhava em ser piloto, um contrabandista trambiqueiro e charmoso, um grande tapete ambulante, um droide atrevido que faz bip-bip, um droide covarde e tagarela, um velho ermitão, um supervilão de máscara, capa e respiração assustadora. Babaquices, coisas sem sentido.

Mas tem uma coisa que dá sentido ao filme: a política.
A princesa rebelde luta contra o Império Galáctico – regime cujo nascimento veríamos na trilogia prequel, lançada décadas depois. Com força e idealismo, Leia lidera a Aliança Rebelde, uma união de diversas células que antes atuavam isoladas pela galáxia. Com poucos recursos e vivendo na clandestinidade, mas movidos pelo sonho de uma galáxia livre, os rebeldes derrotam o Império e todo o seu poderio bélico, representado pela temível Estrela da Morte.
Mas em Star Wars a política não está só na ficção. George Lucas confirmou que a Aliança Rebelde foi inspirada nos guerrilheiros Vietcongs, que enfrentaram a intervenção militar dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Em entrevista a James Cameron, Lucas explicou que a intenção era mostrar como um grupo pequeno e tecnologicamente inferior pode usar táticas de guerrilha para derrotar uma superpotência altamente equipada. O Império Galáctico funciona, assim, como uma crítica ao imperialismo estadunidense, refletindo a rapidez com que uma democracia pode se converter em uma força autoritária e invasora.
Se na trilogia original acompanhamos a luta dos rebeldes contra o Império, na trilogia prequel George Lucas nos conduz ao passado para expor as engrenagens políticas que permitiram a ascensão desse regime autoritário. Das intrigas no Senado a uma guerra que fragilizou a galáxia e provocou o fim da Ordem Jedi, testemunhamos a liberdade morrer sob estrondosos aplausos. Mais uma vez, a política ali não tem nada de fantasia: políticos corruptos movidos por interesses próprios, enquanto os mais vulneráveis são abandonados à própria sorte, é o retrato fiel da nossa própria realidade.

Já a trilogia sequel conduz a narrativa para um futuro em que a Nova República – regime político estabelecido após a queda de Palpatine – é destruída pela ascensão da Primeira Ordem, uma vertente ainda mais radical e militarizada do antigo Império. A ascensão da Primeira Ordem em Star Wars oferece um retrato preciso de como regimes autoritários renascem na vida real. A Primeira Ordem não surge do nada, mas renasce das cinzas do Império Galáctico, um fenômeno que espelha a tese do “fascismo eterno” (Ur-Fascismo), do filósofo Umberto Eco: a ideia de que o fascismo nunca desaparece por completo com o fim de um regime, permanecendo apenas incubado até encontrar o terreno propício para retornar.

Outro exemplo da política em Star Wars – e talvez o mais evidente de todos – é a aclamada série Andor. Em duas temporadas acompanhamos o personagem que dá o título à série, interpretado por Diego Luna, se envolver cada vez mais com a causa rebelde.
Longe do maniqueísmo tradicional de Jedi versus Sith, Andor aborda a política sob uma perspectiva material e institucional, espelhando as engrenagens do autoritarismo do mundo real. Em vez de vilões mascarados, o Império ganha corpo em burocratas eficientes, como Dedra Meero e Syril Karn, que operam entre planilhas e escritórios iluminados. Nessa estrutura, a opressão não decorre apenas do sadismo, mas da ação de funcionários disciplinados que reduzem a violência e a desumanização a meras tarefas de gestão e segurança nacional.

Outro ponto central é a inevitabilidade da radicalização. Como sintetiza o manifesto de Karis Nemik, a tirania não é natural e exige energia constante para conter o próprio medo. Conforme a opressão imperial sufoca os direitos civis e militariza o cotidiano, a população atinge seu ponto de ruptura: Cassian Andor não adere à revolução por idealismo teórico, mas porque o Império torna sua existência comum impossível.
A série também aborda a resistência sob uma ótica moralmente complexa através de Luthen Rael, que encarna o pragmatismo brutal do antifascismo. Para construir uma resistência capaz de enfrentar uma superpotência militar, ele financia a causa roubando cofres imperiais, manipula aliados e toma decisões moralmente controversas, inclusive permitindo a morte de companheiros para proteger informantes estratégicos.
O arco do complexo prisional em Narkina 5 expõe uma das críticas sociais mais contundentes da saga ao servir como alegoria do complexo industrial-prisional e do trabalho forçado. Submetidos a choques e falsas promessas de liberdade em um ambiente hipervigilado, os detentos revelam a verdadeira lógica do sistema penal imperial: não a reabilitação, mas a conversão de corpos humanos em mão de obra ultra-barata para alimentar a máquina de guerra do Estado.
É essa profusão de exemplos que demonstra que, longe de ser apenas uma coleção de “babaquices e coisas sem sentido”, a saga atinge sua grandeza justamente por traduzir os dramas, as contradições e os perigos da nossa própria história. Do nascimento da tirania sob aplausos ao pragmatismo brutal da resistência, Star Wars sempre funcionou como um espelho do nosso mundo. É por isso que afirmo: negar a política em Star Wars não é apenas um equívoco de leitura, é negar a própria essência da saga.
(E para quem, assim como eu, teme o futuro e às vezes se sente impotente, um recado da Princesa-General Leia Organa: “A esperança é como o sol. Se você só acreditar nela quando pode vê-la, nunca vai conseguir atravessar a noite.”)




