Crônicas de Vos | O Dia em que “Droga” Virou Palavrão Proibido na Galáxia

Crônicas de Vos | O Dia em que “Droga” Virou Palavrão Proibido na Galáxia

Domingo de manhã é aquele momento clássico e sagrado: uma xícara de café bem forte na mão, a Maya descansando tranquila aos pés, e a mente vagando calmamente por galáxias muito, muito distantes. É o dia perfeito para refletir sobre as pequenas ironias da vida — ou, no nosso caso, as grandes e cômicas ironias dos bastidores de Star Wars.

Quem senta na cadeira de Mestre em uma campanha de RPG de mesa sabe perfeitamente como a dinâmica funciona. Você cria o mundo, define os limites narrativos e, invariavelmente, os jogadores vão tentar testar cada uma das regras. Mas o que acontece quando você está desenvolvendo um dos maiores RPGs de todos os tempos e a regra imposta pela dona do universo não faz o menor sentido lógico?

Foi exatamente isso que aconteceu nos corredores da BioWare durante a criação da obra-prima Knights of the Old Republic (KotOR). No último episódio do podcast FRVR, o ex-desenvolvedor e veterano da BioWare, Mark Darrah, abriu o baú de memórias e compartilhou uma anedota maravilhosa sobre um embate entre a equipe do jogo e a Lucasfilm.

O grande motivo da discórdia? A equipe queria que um personagem usasse a palavra “damn” (algo como “droga” ou “maldito”, dependendo da tradução) em uma linha de diálogo.

A resposta da Lucasfilm foi rápida e burocrática: “Personagens de Star Wars não dizem damn.”

Agora, qualquer um que trabalhe nos bastidores lidando com infraestrutura, linhas de código ou arquitetura backend sabe que, quando alguém afirma com toda a certeza que “isso não existe no sistema”, a primeira reação instintiva é fazer uma varredura completa. Foi exatamente o que um dos roteiristas da BioWare fez. Inconformado com a censura, ele passou um dia inteiro garimpando as falhas da matriz: assistiu aos filmes de Star Wars e documentou cada maldita vez em que um personagem soltou a palavra proibida.

O resultado? Dezenove vezes. A palavra foi dita 19 vezes nos filmes. O roteirista basicamente virou para a Lucasfilm e disse: “Ah, é? Aqui está o log de evidências provando que isso acontece nos filmes de vocês.”

Em um mundo perfeitamente racional, o argumento estaria encerrado, certo? As provas foram apresentadas e o desenvolvimento seguiria. Mas, lidando com o licenciamento de grandes corporações, a lógica raramente vence. A Lucasfilm bateu o pé e vetou a palavra de qualquer maneira.

Segundo Darrah (que na época estava nos arredores do projeto), essa postura refletia uma nova diretriz da Lucasfilm, que já havia limpado qualquer linguajar mais áspero na Trilogia Prequela e decidiu manter a galáxia livre de palavrões leves para sempre.

E é aqui que a gente quase engasga com o café de tanto rir diante da ironia da situação. KotOR não é exatamente um passeio alegre no parque. Estamos falando de um jogo que te dá a liberdade narrativa de abraçar o Lado Sombrio com uma força brutal. O jogador pode optar por deixar pessoas em situação de extrema pobreza agonizando sem remédios, pode manipular famílias inteiras até que se destruam, ou — no ápice da crueldade — forçar um Wookiee a assassinar sua melhor amiga, uma garota de 14 anos.

Destruir vidas e cometer atrocidades psicológicas? Totalmente liberado. Dizer “droga”? Aí já é passar dos limites da decência galáctica.

Darrah, que tem um currículo de peso que vai desde o Baldur’s Gate de 1998 até o recém-lançado Dragon Age: The Veilguard (passando até por aquele inusitado RPG do Sonic para o Nintendo DS em parceria com a SEGA), resumiu bem a experiência. Para ele, no cenário ideal de licenciamento, existe uma pessoa que é o “rei do universo” daquela marca. Você pode até tentar argumentar, apresentar relatórios e debater, mas no final do dia, quem dita as regras é o dono da coroa.

No fim das contas, seja mestrando uma sessão épica de rolagem de dados no final de semana, ou desenvolvendo um jogo de milhões de dólares, lidar com regras arbitrárias faz parte da jornada. E, honestamente, são essas histórias de bastidores que nos fazem amar a complexidade e as bizarrices de Star Wars ainda mais.

Um excelente domingo para todos nós, e que a Força esteja com vocês!