O domingo em São Paulo tem um ritmo próprio, quase meditativo. Enquanto a cidade tenta desacelerar lá fora, o único som audível aqui no apartamento é o farfalhar das patas da Maya me seguindo pela sala, sempre atenta na esperança de que algum petisco caia acidentalmente do balcão da cozinha. Com uma xícara de café bem forte nas mãos, é o momento perfeito para sentar e deixar a mente vagar para uma galáxia muito, muito distante. Uma galáxia que, ultimamente, tem me feito pensar muito sobre como as grandes histórias precisam evoluir para continuarem vivas.
Para quem respira Star Wars há décadas, a era de George Lucas era o nosso evangelho. Havia dogmas e regras muito claras sobre como aquele universo funcionava. Mas então a antologia Star Wars: Visions abriu as janelas desse quarto fechado, trazendo um frescor que não sentíamos há tempos. Nós aplaudimos a arte espetacular do El Guiri Studios em “Sith”, o épico “The Duel” da Kamikaze Douga e até a adorável genialidade da Aardman Animations. Agora, porém, fomos presenteados com algo que muda o jogo: The Ninth Jedi.
Essa nova série de oito episódios da Production I.G não é apenas um derivado. É uma reinvenção corajosa do que acontece quando a luz dos Jedi se apaga e os Sith espreitam nas sombras. E o mais fascinante no meio dessa trama cheia de novas princesas heróicas e superarmas assustadoras? Eles pegaram três regras de ferro da era Lucas sobre os sabres de luz e as quebraram ao meio. E quer saber? Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.
A Cor da Sua Lâmina é o Tamanho da Sua Emoção
Lembra quando as cores dos sabres eram praticamente fixas, quase como uniformes? Azul e verde para os mocinhos, vermelho para os vilões. Em The Ninth Jedi, o mestre ferreiro Lah Zhima (pai da nossa protagonista, Lah Kara) criou cristais kyber que fazem algo muito mais íntimo: eles respondem às emoções do portador em tempo real.
Se o guerreiro cede à raiva, ao medo ou ao ódio, a lâmina “sangra” para o vermelho na mesma hora, diante dos seus olhos. O fato de os Jedi empunharem lâminas azuis, verdes ou amarelas deixou de ser uma questão de tradição para se tornar uma escolha ativa. Eles não usam vermelho simplesmente porque escolhem não ser dominados por seus sentimentos mais sombrios, eles encontram a serenidade no meio do caos. É uma metáfora visual belíssima sobre autocontrole.
O Brilho Prateado do “Nada”
Já que estamos falando de cores, esqueça a velha cartela tradicional. Nós sorrimos quando Samuel L. Jackson convenceu Lucas a lhe dar um sabre roxo e ficamos intrigados com as misteriosas lâminas laranjas de Ahsoka. Mas The Ninth Jedi introduz uma cor com um peso narrativo colossal: o prateado.
A lâmina prateada surge quando Lah Zhima derrota seu próprio mestre, e sua cor não representa luz ou trevas, mas o absoluto “nada” — o vazio emocional. O grande vilão da série, Nawaam, dedicou sua vida a recriar exatamente esse sabre prateado, enxergando essa dormência, essa apatia emocional, como a forma mais elevada de iluminação. É uma visão poética e incrivelmente perturbadora da Força, e ver os personagens tentando dominar (e superar) essa lâmina é um espetáculo à parte.
A Redenção da Técnica Proibida
Por fim, a série resgatou o lendário Trakata, uma forma de combate aclamada no antigo Universo Expandido (e vista recentemente em The Acolyte). A técnica original era considerada suja e desonrosa: consistia em desligar o sabre de luz no meio de um embate para enganar a defesa do oponente, religando a lâmina para um abate letal.
A animação pegou essa tática de assassino e a subverteu no ápice da filosofia Jedi. Nas mãos de um verdadeiro mestre de The Ninth Jedi, o Trakata é usado não para matar, mas para dominar sem derramar sangue. O mestre desliga a lâmina no milissegundo em que o golpe seria fatal, religando-a logo em seguida. O oponente percebe, em estado de choque, que foi poupado repetidas vezes, percebendo-se completamente superado em todos os sentidos. É a demonstração máxima de piedade e superioridade.
Termino meu café enquanto a Maya finalmente desiste da patrulha matinal e se deita no tapete da sala. Fico pensando que quebrar velhas regras, de vez em quando, é a única maneira de construir novos legados. The Ninth Jedi pode até não fazer parte do cânone oficial, mas captura o espírito de Star Wars de uma forma que poucas obras da era Disney conseguiram. E é por isso que, do fã mais novato à velha guarda, continuamos com os olhos brilhando, sempre prontos para a próxima aventura galáctica.
Um excelente domingo a todos, e que a Força esteja com vocês!






