As influências de Star Wars – Parte 1

As influências de Star Wars – Parte 1

Antes de conceber sua franquia espacial, George Lucas queria fazer um remake de Flash Gordon, porém o estúdio não gostou de suas ideias e abordagem e não concedeu os direitos para ele; sendo assim, Lucas decidiu criar o seu próprio Flash Gordon, uma saga que envolvia mitos, heróis e vilões. Nas palavras do criador: uma homenagem aos filmes de aventura que assisti nas matinês dos cinemas, entretanto com elementos sociais, da psicologia e com uma mitologia própria.

Star Wars engloba uma variada salada de inspirações que vão de Star Trek, filmes de guerra, samurai, documentários, seriados, filmes de faroeste passando por livros e fatos históricos. Nessa série de posts irei mostrar algumas das obras na qual George Lucas se inspirou para dar vida ao seu FAROESTE SAMURAI ESPACIAL.

Eu sempre gosto de imaginar que sem essas obras, que são a maior fonte de inspiração para os filmes, a saga jamais existiria, ou seria algo completamente diferente.

 

1 – Filmes de Akira Kurasawa,  filmes de faroeste e filmes de guerra

2 – Flash Gordon

3 – O Herói de Mil Faces – livro escrito por Joseph Campbell (os arquétipos dos personagens, mitos, e a jornada do herói)

 

Mas onde se encontram essas inspirações dentro da saga?

 

Talvez a mais fácil e óbvia de todas seja o letreiro inicial do filme, no qual somos apresentados à frase ”A long time a ago in a galaxy far far away…”. Essa frase remete imediatamente aos contos de fadas, mais propriamente dito, à frase inicial dos contos ” Era uma vez…”.

Em seguida vem o logo da série, feito pela designer Suzy Rice, com a espetacular trilha sonora de John Williams (algo que foi arriscado por parte de Lucas, já que muito da trilha sonora da época era disco music, entretanto ele aceitou o risco e optou por algo clássico e de enorme impacto).  Inclusive, esse foi o tema com o qual Williams ganhou o OSCAR de ”Melhor Trilha sonora original” em 1978, sendo que ele perdeu para ele mesmo, pois no mesmo ano havia sido indicado pela trilha sonora composta para o clássico Contatos Imediatos De Terceiro Grau de Steven Spielberg.

Em relação ao logo da série, George Lucas queria algo que remetesse aos governos radicais que surgiram na Europa no início do século, que intimidasse e fascinasse o público ao mesmo tempo.

 

À esquerda temos o logotipo original de Star Wars da Suzy Rice e à direita a versão final.

 

O famoso letreiro que abre todos os 7 filmes da saga foi retirado diretamente de Flash Gordon, ideia essa que veio do cineasta e amigo, Brian De Palma, diretor dos clássicos Scarface (1983) e Carrie, a Estranha (1976). Nessa época, De Palma era um dos cineastas da nova Hollywood e junto a Jay Cocks – crítico e cineasta – escreveram o texto de abertura para o filme.

 

 

Após sermos introduzidos à trama, somos jogados no espaço e de repente uma pequena nave passa em cima da câmera e uma outra maior ainda vai passando devagar (uma cena brilhante e absolutamente linda que, na época, causou enorme impacto no público, e continua causando nos dias de hoje). Aqui, a genialidade de Lucas e sua equipe fica evidente, uma simples resolução baseada em proporção que a linguagem cinematográfica dispõe: “Rebeldes” pequeno e fraco, “Império” grande e opressor. Como já dizia o gênio Alfred Hitchcock: Se a imagem fala sozinha, para que diálogos?

Essa cena também é uma homenagem direta a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dirigido pelo genial Stanley Kubrick (2001 estreou em 1968 um ano antes de o homem pisar na lua e foi um filme revolucionário tanto na linguagem cinematográfica quanto em efeitos especiais, sendo hoje considerado um dos maiores e mais importantes filmes da história cinematográfica). George Lucas estava na faculdade de cinema quando o filme estreou e o longa causou enorme impacto em sua vida.

Se você é um fã tanto de ficção científica, quanto de cinema ou de Star Wars, 2001 é um filme que você precisa conferir, seja pela sua genialidade ou complexidade que abre um leque de interpretações filosóficas, ou simplesmente por ser o filme que abriu diversas portas tanto para Star Wars quanto para outros diversos filmes de ficção científica que tanto conhecemos e amamos.

 

Essa cena mudou a minha vida e foi o motivo de eu querer estudar cinema e de ter me apaixonado pela saga, além de ter me feito acreditar que tudo que imaginarmos pode virar realidade

 

 

Outro grande clássico Sci-fi que remete a essa cena é Dark Star de John Carpenter, filme que convenceu George Lucas a chamar ‘Dan O’Bannon’ para fazer alguns efeitos especiais de Uma Nova Esperança.

 

 

Dark Star 1974

 

 

A Fortaleza Escondida de Akira Kurosawa também tem uma cena em que dois personagens fogem da batalha, similar a Uma Nova Esperança.

 

 

Logo em seguida, somos apresentados ao Droids: C3-PO e R2D2. “See-Threepio” foi baseado na android Maria, do clássico filme de Fritz Lang: Metropolis de 1923. Inclusive no primeiro esboço feito por Ralph McQuarrie, o C3-PO é basicamente uma cópia de Maria (esboço esse que convenceu Anthony Daniels a participar do filme). Além disso, o filme de Fritz Lang não só influenciou C3-PO, como também outros elementos da série, que irei entrar em mais detalhes ao chegar nas prequels.

Já R2-D2 foi inspirado pelos robôs de ”Corrida Silenciosa”, inclusive, existe um robô que é muito semelhante ao do filme.

Uma rápida curiosidade em relação a como o nome R2-D2 surgiu: Nas filmagens de American Graffiti, os rolos eram marcados como: rolos (R) e diálogos (D). Walter Murch era o responsável pela edição do filme e em uma noite ele pediu ”Eu preciso do R2-D2” Lucas gostou por ser uma combinação engraçada.

 

 

Conforme a batalha continua e vamos conhecendo mais personagens, somos apresentados aos Stormtroopers, soldados sem rosto e símbolos da crueldade e opressão do Império. George colocou esse nome porque é a tradução para o inglês de Sturmtruppen: Tropas de Assalto do exército alemão que lutaram na primeira guerra mundial e guarda pessoal de Hitler na segunda guerra mundial.
Em seguida, somos apresentados ao temido Darth Vader, suas inspirações foram simples e variadas. O capacete largo no estilo samurai e também similar a um capacete de soldado da segunda guerra mundial. A ideia de Darth Vader usar um capacete veio de Ralph McQuarrie.

 

 

Na cena seguinte, podemos ver melhor a princesa Leia. A inspiração para o seu penteado veio de mulheres mexicanas: Lucas queria um visual de uma espécie de ‘Pancho Villa’ feminina, uma mulher com um aspecto revolucionário.

 

 

E aqui temos mais um cena inspirada por 2001.

 

 

Temos pela primeira vez uma transição de cena em Star Wars, essa transição tanto veio de Flash Gordon quanto dos filmes de Akira Kurosawa.

 

As famosas Wipe, presentes em todos os 7 filmes da saga principal

 

Agora, começamos a jornada pelo ponto de vista dos dois droids. Aqui fica mais evidente a inspiração no filme ”A fortaleza Escondida”. Na verdade, os primeiros manuscritos do episódio IV eram extremamente parecidos com o filme de Akira Kurosawa, mas conforme George Lucas foi evoluindo a história, Star Wars foi tomando sua própria forma. Apesar disso, algumas similaridades continuaram, como: Os dois camponeses que fogem de uma batalha, começam a discutir e seguem caminhos diferentes, mas são capturados e forçados à escravidão. Eles se livram e encontram com um general, com quem embarcam em uma missão para escoltar uma princesa. Entretanto o que mais fascinou Lucas, foi o fato de contar a história pelo ponto de vista de dois personagens completamente insignificantes em meio a um drama gigantesco.

 

Os Droids foram inspirados nos dois camponeses do filme que estão sempre discutindo

 

Outra curiosidade interessantíssima: nos comentários em DVD, George cita R2-D2 como o Macguffn do filme. Esse termo foi criado pelo gênio e mestre do suspense Alfred Hitchcock, e consiste em um elemento que avança a trama. Pode ser uma maleta, arca da aliança, joia ou, como mostrado no filme, os planos roubados da estrela da morte.

Na cena em que C3-PO e R2-D2 se reencontram no Sandcrawlers, podemos ver um droid, o GNK (que na verdade é uma caixa com pernas). Seu conceito é uma inspiração direta dos robôs mostrados em Corrida Silenciosa.

 

 

Finalmente somos apresentados ao herói da saga, Luke Skywalker. Aqui entra uma das principais, se não a principal, fonte de inspiração de Star Wars. Estou falando do livro escrito por Joseph Campbell, chamado O Herói de Mil Faces. Nesse livro, Campbell explora a teoria de que mitos importantes de todo o mundo têm sobrevivido por milhares de anos, e todos compartilham uma estrutura fundamental, o que o autor chamou de monomito (também conhecido como “Jornada do Herói”). Campbell afirma que mitos clássicos de muitas culturas seguem um padrão básico, e essa foi uma inspiração de George Lucas para o roteiro de Star Wars.

 

Ao limpar R2-D2, Luke descobre a mensagem para Obi-Wan. Essa cena é similar a outro clássico Sci-Fi lançado em 1956: Planeta Proibido. Esse filme tem um dos robôs mais icônicos da história do cinema e da ficção científica chamado Robby.

 

 

Logo em seguida, depois de ir atrás de R2-D2 e ser atacado pelo povo da areia, Luke é levado à casa de Obi-Wan, onde o sábio explica que era um cavaleiro Jedi assim como o pai de Luke. Aqui temos outra inspiração tirada de Akira Kurasawa: o nome JEDI foi tirado de Jidaigeki – um gênero de filmes, teatro e televisão japoneses que retratam dramas de época e são frequentemente definidos durante o período Edo da história japonesa. Esse era o gênero com que Akira Kurasawa trabalhava.

 

Os filmes Jidaigeki são por vezes referidos como “luta de espadas”

 

Na mesma cena, Obi-Wan mostra a arma usada pelos Jedi e, claro, ela lembra imediatamente às katanas usada pelos samurais. A ideia de George Lucas era uma espada futurista, que remetesse às aventuras dos anos 40, como os filmes de pirata e longas como ”As Aventuras de Robin dos Bosques (1938)”, que transmitisse honra, cavalheirismo e o lado romântico dessas lutas. Nessa época, dos episódios IV, V e VI, a arma funciona mais como um símbolo do que uma arma propriamente dita.

 

O sabre de Luke foi feito de um flash do lado da câmera da Graflex.

 

Curiosidade: Originalmente os ”Stormtroopers” ou qualquer pessoa poderiam empunhar a arma, mas George decidiu que só os Jedi a usariam, tornando-a mais mística. Por essa razão que nas costas dos Stormtroopers existe um tubo, ali seria colocado o sabre de luz.

Outra inspiração que vem diretamente da cultura japonesa são os figurinos, tanto os usados por Obi-Wan quanto o de Luke e outros.

 

kimono

 

Depois de conhecermos Obi-Wan e ficarmos sabendo da Guerra dos Clones, somos apresentados à maior arma do império. A estrela da morte, símbolo que remete diretamente à Guerra Fria, período vivido por George Lucas.

 

 

Os uniformes dos oficiais do Império foram baseados nos uniformes dos oficiais da Alemanha nazista criados por Hugo Boss.

 

 

Logo após Luke descobrir que soldados do império mataram os Jawas e estão atrás dos droids, ele decide retornar para sua casa e descobre que seus tios foram brutalmente assassinados. Esse cena é a mesma no clássico filme de faroeste dirigido por John Ford chamado Rastros de Ódio (1956), inclusive as paisagens que cercam a fazenda de Lars também lembram o filme de Ford.

 


 

Ao chegarmos em Mos Esley, que parece ter saído de um filme de Sergio Leone, somos introduzidos ao forte Chewbacca. Chewie é baseado no cachorro de George Lucas, chamado Indiana (onde será que eu já ouvi esse nome antes?).

 

 

Já o nome da raça de Chewie, Wookiee, veio de um acidente na gravação de um dos filmes de George Lucas, ”THX 1138”. Um DJ local chamado Terry Mcgovern tinha que fazer algumas vozes para o tráfego do filme, ele era um reservista do exército na época e foi ao estúdio com o melhor amigo e colega de reserva, o recruta Bill Wookey. Wookey jamais conheceu George, o que aconteceu foi que, em uma sessão de improviso, Mcgovern disse uma frase em homenagem ao seu amigo: ”acho que acabei de atropelar um ‘Wookey’ lá atrás.” Lucas adorou o som disso e arquivou o nome em seu caderno de anotações que sempre carregava durante as filmagens.

E quem não se lembra dos encrenqueiros que procuram briga com o Luke, Ponda Baba e Dr. Cornelius, uma pequena homenagem/inspiração tirada de Yojimbo de Akira Kurasawa?

 

 

E finalmente conhecemos ele…o malandro… o cafajeste mais amado da galáxia: Han Solo (Um verdadeiro Cowboy). Sua inspiração é obvia, ele é o pistoleiro do velho oeste tirado diretamente dos filmes de faroeste que Lucas tanto assistiu e que influenciaram tanto a saga.

Han Solo também é um personagem muito parecido com o amigo do diretor, Francis Ford Coppola. Lucas conheceu Coppola durante seu estágio na Warner e, juntos, eles fundaram a American Zoetrope – um estúdio de cinema independente.

 

 

Lucas e Coppola

 

Coppola esta por trás de inúmeros clássicos, mas uma certa trilogia serviu de inspiração enorme para a saga, tanto para o mundo criminal quanto para um tal gângster do Ep VI.

 

Foi Lucas que convenceu Coppola a dirigir The Godfather, e Lucas também trabalhou no filme, entretanto era Lucas que iria dirigir Apocalypse Now e no fim quem acabou dirigindo o filme foi Coppola. Dois de alguns dos maiores filmes do cinema

Aí temos a famosa e controversa cena de quem atirou primeiro. Sem entrar em detalhes ou criar polêmica, ela lembra à cena do começo do clássico Três Homens em Conflito ”Il buono, il brutto, il cattivo”.

 

Não poderia deixar de citar a beleza dessa cena, uma plano americano retirado diretamente dos filmes de faroeste, foi o gênero que criou esse tipo de ângulo tanto usado em filmes.

 

 

E por falar em Três Homens Em conflito, que tal o poncho que Luke usa?

 

 

Para aqueles que assim como eu que amam os caçadores de recompensas tanto nos filmes quanto na série Clone Wars, a trilogia dos dólares de Sergio Leone, é uma prato cheio, além de ser um clássico e uma das maiores trilogias do cinema, vale a pena tanto para um fã da saga, quanto para um fã de faroeste e cinema.

 

Quando Luke e cia encontram o maior ferro velho da galáxia, a cena é idêntica à pintura de Ralph Mcquarrie

 

 

Logo em seguida temos outra cena similar à Flash Gordon.

 

 

Logo após a explosão de Alderaan, temos a famosa cena do Xadrez espacial de Star Wars, o ”Dejarik”. Os efeitos dessa cena foram criados pelo lendário Phil Tippett. Tippett foi influenciado pelo trabalho do gênio Ray Harryhausen, pioneiro nas técnicas de animação stop-motion e monstros gigantes.

Phil Tippett foi responsável por fazer os efeitos em stop-motion da cena, tanto as técnicas quanto criaturas foram inspiradas diretamente no filme ”Simbad e a Princesa”.

 

Phil Tippett

 

Ray Harryhausen

 

A famosa cena onde Jasão enfrenta um exército de esqueletos na qual serviu de inspiração para uma batalha em GOT. Ray Harryhausen foi o responsável pelos efeitos especiais desse clássico.

 

The 7th Voyage of Sinbad

 

Aqui temos outra cena tirada da pintura de Ralph Mcquarrie

 

 

 

E outra cena inspirada em 2001:

 


 

Quando nossos heróis se escondem no compartimento, é mais uma cena que remete a um filme de Akira Kurasawa, Sanjuro:

 

 

Quando Luke e Han Solo se disfarçam de Stormtrooper, temos outra inspiração de Flash Gordon, quando o personagem e seus companheiros se disfarçam de inimigo para resgatar algumas pessoas que foram capturadas.

 

 

Curiosidade: é nessa cena que R2-D2 entra no sistema do Império e grava tudo, inclusive parte do mapa que revela a localização do planeta onde Luke estava.

Ao chegar ao bloco de celas, existem vários e vários easter eggs que se repetiram em toda a saga.

Primeiro temos o número 1138, esse número vem do primeiro filme de George Lucas (THX-1138), nome que George colocou em sua empresa de som THX, para fazer os efeitos sonoros de ”O Retorno De Jedi”. Esse número, inclusive, está em todos os filmes, séries etc.
A cela onde a princesa Leia está presa tem outra história interessante. O número da cela é 2187, esse número foi usado para o Stormtrooper FN-2187 em O Despertar da Força.

2187 veio na verdade de um curta-metragem de 10 min de Arthur Lipsett, chamado 21-87, que teve enorme influência na carreira de George Lucas, principalmente em THX.

 

 

 

Essa foi a primeira parte, espero que tenham gostado. Por favor comentem se gostaram ou não, se já sabiam ou se já viram algum desses clássicos, e, se não viram, por onde querem começar. Mas, por favor, sempre com respeito, sem xingamentos, ofensas ou palavrões, não existe necessidade disso.

 

Indicação de filmes

Além de aumentar o repertório, vocês poderão sentir e entender um pouco como George Lucas conseguiu construir seu universo de filmes. E para aqueles que ainda não viram esses filmes: Eu invejo vocês, pois já vi todos.

2001 – Uma Odisseia no Espaço

Os Sete Samurais

Yojimbo

Ran

Trilogia dos dólares

Fortaleza Escondida

Rastros de Ódio

 

CONTINUA…