CRÍTICA: “O Despertar da Força” – o filme e seu fenômeno um mês depois

CRÍTICA: “O Despertar da Força” – o filme e seu fenômeno um mês depois

Depois de um mês da estreia do filme, me senti na necessidade de fazer uma análise cinematográfica e por consequência mercadológica deste primeiro episódio, de três, da nova saga de Star Wars. A quem acompanha meus textos, sabe o quanto não consigo dissociar a franquia de seus compromissos com a humanidade. Porém, é chegada aquela hora chata com o fandom de Star Wars, na qual separamos o joio de trigo para melhor degustação deste texto. Então, nosso papel é claro e direto:

“Se você, fã de Star Wars, acredita que o filme tenha sido feito só para você, pode parar de ler o texto e nem gaste seu tempo.”

Óbvio que os filmes alimentam as discussões, teorias e rumores acerca do que pode vir à frente. Os requisitos que um filme precisa cumprir ao ser feito e seu objetivo de público são maiores do que apenas atender ao fã que, ultimamente, com as redes sociais ao seu serviço, se comporta, na maioria das vezes, como “uma fatia importante de espectador que ficou desagradado com os caminhos do filme”.J.J Abrams e George LucasAmiguinho, se caso se sentir atingido com esta observação que relatei, te aconselho: a vida segue, este é apenas um filme e graças ao fã de Star Wars, George Lucas vendeu a franquia e isso é uma faca de dois gumes: quem não entendeu qual era a do Lucas na trilogia do Anakin e nem o papel que este diretor tem para o mercado de cinema independente e blockbuster ao mesmo tempo, agora corre o risco de ver a obra mais engessada a ser livre.

Livre a franquia era. Se George Lucas era independente, ele fazia com a saga o que bem entendesse e assim experimentava tudo que poderia no cinema: desde a pré-produção, a produção, a pós-produção e até mesmo exibição.

Nas mãos da Disney, não há mais o experimento. É um produto que tem metas a cumprir e DEVE atingir o maior número de pessoas possíveis.

Portanto, se o fã exigente se aborrecer com os caminhos que escolheram para o filme, há uma legião de fãs atrás dele que chegam com uma nova geração, novos gostos e novas posturas de se enxergar a saga. Em geral, nota-se uma incomunicabilidade entre duas gerações alimentadas por Star Wars com as trilogias de Vader e Anakin, e isso como um fenômeno a ser analisado é muito bom para profissionais de análise do efeito do cinema nas pessoas.

Cinema é isso: ele é sintomático e, geralmente, serve pra que analisemos uma década e seus filmes. Uns ficam datados, outros não.

As viúvas da trilogia clássica, ainda esperam a magia que fez parte da virada de 70 para 80. Isso não vai voltar, amigos. Ela fez parte da cultura e reconquista do cinema comercial daquela época, era outra situação e o contador de histórias que foi George Lucas não se reciclou “na direção”, motivo este que o condenou quando sentiram esta fragilidade na segunda trilogia numa virada de milênio. Não era mais o contador de histórias nessa segunda trilogia, era “como contar uma história de maneira diferente”.
Parece que não, mas o criador da saga poderia, sim, retomar a partir do episódio VII, onde ele abandonou para poder produzir ou criar outras obras. Mas ele preferiu contar o começo da jornada de Vader. É nítido que faltou coragem por saber a responsa que seria retomar atores cansados, desviar de inúmeras linhas temporais contadas por livros e histórias em quadrinhos, entre outras formas midiáticas de se preencher lacunas.

É, amigos, George Lucas arregou para aquilo que daria muito trabalho. Daria muito mais trabalho do que o caminho que ele optou de realizar três filmes (mais um Indiana Jones) na base da preguiça digital, e convenhamos, compromete o filme que se torna menos ousado esteticamente. Porém, era isso mesmo que ele queria.Elenco de O despertar da forçaMas voltemos ao filme. A contextualização depois da venda da franquia à Disney em 2012. Acompanhei a realização do filme em boa parte dos sites e lembro que questionei me questionei por que Michael Arndt havia sido escalado a escrever o roteiro, com apenas Toy Story 3 como um filme de mesmo universo de uma franquia. O cara sempre foi didático (exceto por Pequena Miss Sunshine) a fazer roteiros redondinhos. Lawrence Kasdan (roteirista de Episódios V e VI) se juntou ao projeto, onde acredito que tenha surtido o efeito de concluir o roteiro que J.J. Abrams desejava.

Abrams já se demonstrava um bom diretor de ação, que além de ter dirigido dois Star Trek, já vinha embalado de dois filmes chaves para que demonstrasse um domínio suficiente na direção (Missão Impossível 3 e Super 8) para poder segurar a bronca de Star Wars, ainda mais porque era fã confesso. Em todo o processo, ele gosta de segurar demais as informações, fez isso com os fãs de Star Trek e tentou fazer isso com os fãs da Força. Lembro-me que um mês e meio antes do filme, vazou parte da história, e durante muito tempo, várias lendas e rumores assustaram os fãs curiosos com o fato de o filme começar com um sabre vagando pelo espaço. Essa mania dele ajuda a se especular muita coisa de como o filme poderia ter sido. Para nossa sorte, muitos rumores (apelidados de tumores pelos editores deste site) caíram por terra.Notem que o texto circunda a dificuldade de se assumir um posto de continuar não apenas uma franquia, mas aceitar o desafio da continuidade de um dos projetos mais difíceis de se produzir. Não falo isso pela exigência dos fãs antigos, mas pelo fato de que nas mãos da Disney, algumas posturas viriam com o filme, como a constante quebra de paradigmas que Disney tem feito com suas obras recentes. Frozen coloca o galã como vilão, “Valente” tem uma princesa que não quer fazer parte de cerimônias da realeza, e com Star Wars, temos um trooper negro e uma protagonista feminina.

Quer queira ou não, estes pequenos atos causaram um imenso rebuliço na nação americana: o racismo sempre presente foi cutucado, o mercado de fãs de Star Wars que até então era masculinizado, abriu as portas para o nicho feminino que cresce cada vez mais, inclusive no cinema. A figura feminina nunca esteve em alta desde que pesquisei os personagens de Pam Grier em filmes de Blaxploitation.
Vamos ao filme.

Ao assistir a um filme, é difícil separar o contador de histórias e o público alvo. A obra tem diversas demandas a serem cumpridas. O filme tem que agradar aos fãs antigos da trilogia clássica, aos fãs intermediários da trilogia de Anakin e angariar uma terceira geração para conhecer um universo mágico do filme de fantasia e aventura.

A estrutura narrativa inteira é debruçada e, às vezes, escrava da necessidade em atender a essas demandas. Basta lembrar que os personagens clássicos estão distribuídos numa narrativa progressiva que vai segurar o fã antigo em busca de identificação. O filme começa apresentando o novo corpo de protagonistas. Logo em seguida, nos apresenta Han e Chewie, que praticamente conduzem os protagonistas para o universo verdadeiro das aventuras que conhecemos. Quando o fã antigo se sentisse deslocado, surge no terceiro quarto do filme a Leia e, finalmente, no desfecho do filme, o último Jedi. Pronto. Um filme com personagens clássicos distribuídos em suas duas horas de filme, uma apresentação do painel que os personagens se encontram e situações abertas, lacunas incompletas para que os dois outros filmes cumpram suas lacunas.A dificuldade se torna maior quando lembramos que desde que Disney tomou conta, fora os personagens clássicos, todo o resto é algo novo, criado e inaugurado pra fazer parte desta nova fase da franquia. Com novos planetas, novos aliens e uma nova situação. A imersão do fã antigo se torna um pouco mais difícil de acontecer por conta do excesso de novidade. Muitos fãs se questionaram porque não poderiam por Rancors naquele encontro de gangues, ou porque não distribuíram alguns aliens já famosos no castelo/boteco de Maz Kamata, só que o cinema tem dessas, principalmente o fã de Star Wars, que gosta de “pensar como o filme seria” segundo os preceitos dele, nós, do cinema, pensamos que Cinema não é o que “deveria ser”, é o que o diretor escolheu, pensamos no que circundava o diretor no seu auge criativo e como suas escolhas dialogam com seu público. Por isso, no começo do texto, salientei que o filme não foi feito para o seu nicho. Foi feito para todos e, hoje, fala com crianças, adolescentes, idosos, com a mulher, com o homem negro ou branco, ou seja, que faz filmes, o faz para que todos queiram assistir. O resultado desta conquista absurda de bilheteria que vemos o filme alcançar é sinal de que conseguiu dialogar com o público… E cumprir seu objetivo.JJ Abrams, Jonh WilliamsEntrando mais a fundo na análise fílmica, um ponto que me irritou neste filme, é a ausência de se pontuar a narrativa utilizando a trilha sonora de John Williams. Em todos outros filmes da saga, Williams é quase metade da construção narrativa, era pensado junto da montagem como grande elemento rítmico, porém, senti muito mais peso ouvindo a trilha separada do filme, do que sentir ela pautando os momentos de tensão e aventura.

Este é o ponto que me facilita a encaminhar a outro departamento que estranhei ao ver o filme: a montagem

Nas duas outras trilogias, Lucas e seus montadores faziam uma montagem clássica, sem flashbacks, onde o tempo flui, e a cada mudança de locação nos era apresentado um grande plano geral, tal qual as “summer novels” que fizeram parte do gosto de Lucas e que indicavam de maneira suave a troca de locações, de lugares onde se desenvolvia a história.
Nas mãos de Abrams essa montagem muda para aquilo que ele sabe bem fazer: pontos de virada em inúmeros momentos do filme. É a substituição da estética dos diretores, a mudança de tom nos filmes.

Algo necessário. Já que em 1999-2005 o ritmo da segunda trilogia foi mal compreendido pelo péssimo método comparativo à saga “Matrix”, que ditou regras e tendências no cinema da época.
Já que o assunto é ritmo e narrativas, difícil deixar de comentar o que mais se lê por aí; “O Despertar da Força” é um remake, ou reboot de “Uma nova Esperança”. A questão aqui se junta ao fato citado lá em cima. Dois fatos na verdade: a chegada de Kasdan para ajudar Arndt depois que o roteiro tinha sido iniciado, e principalmente, aquele papo de atender as demandas que agradem todo tipo de pessoas possíveis. Oras, por que não fazer isso caminhando em terreno que já se conhece? Parece meio covarde, mas o que seria mais uma covardia já que George Lucas decidiu dirigir episódios I, II e III a continuar a franquia?Os elementos da estrutura narrativa são os mesmos, sim: um exército procurando por um droid foragido, unir personagens desconhecidos, tirar o protagonista da zona de conforto, buscar informações numa cantina, descobrir uma Super Arma que destroi planetas, e um momento do despertar da Força do protagonista, que desencadeia a vocação e a razão pela qual o destino escolheu tais personagens.

São semelhanças que demonstram o quanto algumas fórmulas ainda podem funcionar. Se me dissessem que repetir fórmulas quase quarenta anos depois funcionaria, eu discordaria. Mas estudar estes fenômenos é algo interessante para a história do cinema. E aí estão os números para confirmar como todo mundo está vendo, e se o fã assíduo preferir reclamar, paciência. Ele vai ser substituído por uma nova geração, é assim que as franquias reciclam seu público. O que seria Avatar senão uma história velha e cansada de Colonizador versus Colonizado envolto a uma roupagem tecnológica que garante o filme ter caminhado em terreno seguro? É quase o mesmo caso.
Star Wars termina seu primeiro episódio, de três predecessores, num saldo menos interrogativo que seus outros casos (Uma nova Esperança e A Ameaça Fantasma), a experiência de um espectador de primeira viagem era um dos alvos iminentes da série.

Particularmente, acredito que a franquia merecia estar em outras mãos na direção, mas ainda sob cuidados da consultoria de George Lucas, usando o mesmo caminho de Indiana Jones: Lucas argumenta e produz, enquanto outros produtores executivos e bons diretores de ação tomassem conta da direção, o que me deixa uma sombra de dúvida do que seria da história desta trilogia se estivesse ainda aos cuidados criativos do “Pai da Criança”, mas conforme disse antes, o que temos é esta bela peça, e nela que nos debruçamos para ver, rever e extrair novos significantes e significados de um mundo que já bate records de venda e não vemos nem uma ponta de iceberg de tudo que possa ser extraído por livros, HQ’s, games e possíveis novas plataformas de exercícios narrativos.

Termino esta pequena análise relembrando que um diretor como J.J. Abrams sabe quais elementos visuais são inseridos num filme para dialogar também com amantes de cinema. Quando relembro o filme, três momentos insistem da recordação como deleite aos cinéfilos: a chegada das tropas a Jakku, com impressões sintomáticas de um filme de guerra e a chegada de soldados ao vilarejo de Lor San Tekka (como é bom ver Max Von Sydow ainda em vigor apesar da idade), e o nervosismo de Finn no desembarque da guerra. Destaco também um dos planos mais belos dos TIE Fighters no por do Sol, um excelente trabalho da equipe de fotografia, nos remetendo aos helicópteros de Apocalipse Now (1979), e, óbviamente, a construção visual da prova final de Kylo Ren, quando a luz do sol se extingue não apenas figuradamente pela Starkiller, mas figuradamente, quando a luz azul se apaga, sobrando apenas a vermelha. Quem acompanha Abrams, sabe o quanto esta paleta de cores acompanha seu trabalho, e deixar esta marca na hora mais crucial do filme, é o artista assinando ao quadro.

A escolha de escrever um mês após o filme, seria para descrever a causa e efeito da obra. Bom pensar que o pai dos blockbusters volta a brilhar nas bilheterias, sinal que os novos fãs receberam de bom grado mais um ciclo de filmes, mais uma geração que pode até se sentir no direito de organizar seu universo expandido.

Ao fã aborrecido, segue a dica de como professores indicam a postura correta do espectador: Vamos ao cinema porque queremos gostar do filme. É um trato, um pacto na qual o diretor te convida a ingressar no mundo dele e você viaja para esta janela da identificação (a tela de cinema) de olhos livres de preconceitos ou mesquinharia e que, caso isso não aconteça e você duvide ou se coloque acima da obra, já a matou antes mesmo dela começar.Pensar que um filme, ainda mais agora com selo Disney, seja feito apenas ao fã de Star Wars, seria muito mesquinho de nossa parte. Cobrar de uma primeira parte muitas respostas, sendo que nem metade das perguntas foram soltas, pode ser uma quebra de expectativa fatal também. Basta pensar que a Disney tem agora a galinha dos ovos de ouro e quanto mais perguntas soltas para serem respondidas em outras formas midiáticas, melhor.

É um jogo de “me engana que eu gosto”, que precisa evitar a rabugentice de pensar “que a Disney só quer dinheiro” e lembrar que excelentes profissionais possam ser contratados para vender um material de qualidade e conivente com o universo que tanto amamos e está sendo preparado com olhos muito atenciosos.

Aos que desistiram por decepção, a melhor opção é passar o bastão para uma nova geração de fãs que tem muito aprender como nosso geração aprendeu a debater Star Wars.

Aos que se sentem atraídos pelo que a saga pode oferecer, eu digo: “Paciência, jovem Padawan!” É a frase quase mantra que devemos seguir.

Veja também a excelente matéria sobre o Oscar e sua relação com Star Wars.


Vebis Jr é produtor, diretor e mestre em cinema.

Lecionou em escolas como Academia Internacional de Cinema, Etec Roberto Marinho e Unimonte

Texto revisado por Allan Torres.