Lá estamos nos novamente no aguardo de mais uma produção que possa ser o “vai ou racha” da franquia Star Wars: Starfighter, dirigido por Shawn Levy e estrelado por Ryan Gosling, previsto para chegar aos cinemas a tempo das comemorações dos 50 anos do lançamento do Star Wars original, em 27 de maio de 2027. Isso torna incerto quando aquele projeto embrionário do Steven Knight tentará, de alguma forma, ajustar o navio Skywalker que ficou a deriva após o nono filme dirigido por J.J. Abrams, Star Wars: A Ascensão Skywalker, ter dividido fãs e críticos.
Watts já possui experiência no universo Star Wars, tendo cocriado a série infantil aclamada pela crítica Skeleton Crew, lançada em 2024. Quanto aos próximos passos da Saga Skywalker, poucos detalhes foram divulgados sobre o que seria o décimo filme da série. O The Hollywood Reporter informou apenas que Rey, interpretada por Daisy Ridley, estará envolvida “de alguma forma”. A Lucasfilm ainda não se pronunciou oficialmente, embora fontes internas tenham relatado que o projeto de Watt seria o filme atualmente “mais avançado em seu desenvolvimento”.
Mas por que falar sobre Star Wars como cinema de autor? Muita gente fica perdida quando discutimos o fato de que a franquia conseguiu ocupar, ao mesmo tempo, dois polos aparentemente opostos da produção cinematográfica: de um lado, o cinema de autor, marcado pela expressão pessoal de seus realizadores; de outro, o cinema de entretenimento, pensado também como um produto industrial destinado a alcançar grandes públicos e, consequentemente, gerar lucro.
Para entender melhor essa aparente contradição, precisamos voltar um pouco na história do cinema.
Cinema de autor e pensamento moderno
O cinema de autor, entendido como uma forma de cinema baseada na expressão pessoal do realizador, ganhou força em meados do século XX, especialmente na Europa. Ele promoveu uma nova maneira de compreender o cinema: o filme passou a ser visto não apenas como um produto industrial, mas também como resultado da visão particular de um diretor-autor.
Essa transformação esteve profundamente relacionada ao surgimento do cinema moderno, marcado por novas propostas estéticas e por influências sociais e políticas. O cinema passou a dialogar mais diretamente com as transformações do mundo no pós-guerra e com as vanguardas artísticas que surgiam naquele período. Se pensarmos em cinema americano, alguns diretores como Hitchcock e Orson Welles já haviam rompido a barreira do clássico para criar o cinema moderno em território americano.
O conceito de cinema de autor seria posteriormente reavaliado e assumiria novas formas ao longo das décadas seguintes. Embora o cinema de autor tenha continuado — e continue existindo —, ele passou a incorporar diferentes tendências sociais, políticas e estéticas, abrindo também espaço para aquilo que posteriormente seria associado ao cinema pós-moderno.
Para compreender essa transformação, é importante também entender a diferença entre o pensamento moderno e o pensamento pós-moderno.
O homem moderno acredita que a lógica e a razão são suficientes para compreender e descobrir as verdades que governam o universo. A razão teria acesso à realidade e seria uma fonte de conhecimento objetivo. Essa é uma das premissas fundamentais do pensamento moderno, com todas as consequências que ela pode produzir.
Embora essa maneira de compreender o mundo tenha raízes na Grécia e na Roma antigas, tenha desaparecido durante parte da Idade Média e sido posteriormente retomada no Renascimento, o pensamento moderno foi profundamente moldado no século XVII, especialmente com a consolidação da ciência moderna associada a figuras como Galileu Galilei.
Esse pensamento se enraizou ainda mais profundamente durante a era industrial. O homem moderno é concebido como autônomo, e sua ideologia está baseada em valores como a vontade, o trabalho, a razão e a capacidade humana de transformar o mundo.
Já o pensamento pós-moderno surge, em grande medida, como uma reação e um questionamento à modernidade. Em vez de acreditar que a humanidade pode alcançar uma verdade objetiva por meio da razão e da ciência, o pensamento pós-moderno questiona a própria possibilidade de alcançar uma verdade absoluta.
Para o pensamento pós-moderno, a linguagem participa ativamente da construção daquilo que entendemos como realidade. Em outras palavras, a maneira como pensamos e interpretamos o mundo é influenciada pelos sistemas de linguagem e pelas estruturas culturais nas quais estamos inseridos.
Assim, a ideia de uma única realidade ou verdade objetiva passa a ser questionada. A verdade pode ser entendida como algo subjetivo, construído e condicionado pela linguagem, pela cultura e pela experiência. É também uma perspectiva marcada pelo desencanto com as grandes utopias e pelos questionamentos às explicações universais sobre o mundo.
Do cinema clássico ao cinema moderno
O cinema moderno surgiu quando o modelo do cinema clássico começou a entrar em crise.
O cinema clássico, entendido principalmente como o cinema americano produzido entre a consolidação de Hollywood, a partir da década de 1910, e aproximadamente a década de 1950, foi sustentado durante décadas pelo sistema de estúdios, pelos filmes de gênero e pelo star system (nome que damos ao tipo de cinema reconhecido pelas estrelas que vão atuar, não tanto pelas mentes criativas por trás do filme).
Sua narrativa era, em grande medida, escapista, apenas pra se distrair do mundo pesado que se vivia. Eram histórias construídas como sonhos, nas quais os protagonistas enfrentavam obstáculos e, ao final, alcançavam seus objetivos: fortuna, amor, sucesso ou alguma outra forma de realização pessoal, uma jornada do herói que se trocava de roupa a cada filme.
Apesar das variações e das diferentes abordagens existentes dentro de cada gênero, essa estrutura permaneceu relativamente sólida durante boa parte do período clássico.
As razões para a crise desse modelo foram diversas. Uma delas foi a abrupta mudança cultural ocorrida a partir do final da década de 1950. A sociedade mais conservadora que havia sustentado boa parte do cinema clássico começou a ser substituída por novas gerações, com pensamentos mais livres e dispostas a questionar os valores e modelos narrativos anteriores.
A segunda causa foi econômica. Os grandes estúdios de Hollywood, responsáveis pela produção e distribuição do cinema clássico, passaram a enfrentar dificuldades com a chegada da televisão aos lares americanos. O público agora tinha uma nova forma de entretenimento dentro de casa, reduzindo a frequência aos cinemas.
Além disso, decisões judiciais relacionadas à legislação antitruste obrigaram os grandes estúdios a abandonar o controle direto sobre uma parcela significativa das salas de exibição. O antigo sistema de produção, distribuição e exibição começava, portanto, a perder sua força.
A crise do cinema clássico abriu as portas para novas possibilidades.
Foi nesse contexto que surgiram novos cinemas, especialmente na Europa, que romperam não apenas com as estruturas narrativas do cinema clássico, mas também com suas estruturas ideológicas. Esses movimentos já não estavam interessados em produzir apenas um cinema onírico e escapista. Eles queriam mostrar realidades mais concretas: a melancolia do pós-guerra, a alienação do indivíduo contemporâneo, a falta de comunicação entre as pessoas, os conflitos sociais e as falhas das instituições e do Estado (mais atual do que nunca, não?)
O cinema moderno nasceu, portanto, sustentado por dois princípios estéticos e ideológicos fundamentais.
O primeiro era a tentativa de representar uma realidade mais objetiva da experiência humana. E não haveria nada mais objetivo do que colocar o próprio sujeito no centro da narrativa: um indivíduo frequentemente insatisfeito, incapaz de alcançar aquilo que deseja. Diferentemente do cinema clássico, em que o protagonista geralmente alcançava amor, fortuna ou sucesso, o cinema moderno estava disposto a mostrar personagens que fracassavam, permaneciam em dúvida ou simplesmente não encontravam uma resolução satisfatória para seus conflitos.
O segundo princípio fundamental era o conceito de cinema de autor.
Embora a ideia de um diretor como autor já existisse, foi durante o cinema moderno que essa concepção ganhou força teórica e política. O diretor passou a ser valorizado como a principal figura criativa do filme, alguém responsável por imprimir sua visão de mundo à obra.
No cinema clássico, o diretor era frequentemente percebido como mais um profissional dentro de uma engrenagem industrial. O produtor, o estúdio e as necessidades comerciais tinham enorme peso nas decisões criativas, enquanto o estrelato muitas vezes estava concentrado nos atores e atrizes.
Isso não significa, evidentemente, que não existissem grandes diretores-autores no cinema clássico. Volto a recitar Alfred Hitchcock, Orson Welles e Howard Hawks que são exemplos de realizadores que conseguiram impor uma identidade criativa extremamente forte mesmo dentro das limitações do sistema de estúdios.
A diferença é que o cinema moderno passou a transformar essa autoria em um princípio crítico e estético.
Em última análise, o diretor-autor seria aquele que manifesta, por meio de um filme, sua própria metáfora da vida e sua visão particular da experiência humana. Por isso que Star Wars longe de seu criador, tende a passar o resto de sua existência acertando em um produto, errando em outro.
Na França, a revista Cahiers du Cinéma, fundada em 1951, em Paris, teve papel fundamental na consolidação dessa política dos autores. Seus críticos passaram a defender e analisar determinados realizadores como verdadeiros artistas, identificando uma continuidade temática e estética em suas obras.
Entre os diretores valorizados estavam Alfred Hitchcock, Orson Welles, Howard Hawks e William Wyler, no cinema clássico americano; Ingmar Bergman, no cinema sueco; e os realizadores do neorrealismo italiano.
A chamada política dos autores ajudou, portanto, a estabelecer uma nova maneira de pensar e categorizar os diretores: eles deixavam de ser vistos apenas como técnicos responsáveis por executar um roteiro e passavam a ser reconhecidos como as cabeças criativas de seus filmes, adquirindo o estatuto de artistas.
Cinema como arte e indústria
O fato de o cinema moderno promover o cinema de autor como um de seus principais princípios implica uma mudança importante: o cinema passa a ser visto também como um meio de expressão artística, e não apenas como entretenimento ou produto industrial.
Mas isso não significa que arte e indústria sejam necessariamente incompatíveis. Elas simplesmente nem sempre caminham juntas.
É justamente aqui que a discussão sobre Star Wars começa a ficar interessante.
Outra característica estrutural do cinema moderno está na maneira como ele aborda o roteiro e a narrativa.
Essa narrativa já não procura necessariamente oferecer ao espectador uma projeção idealizada da vida. Em vez disso, apresenta um confronto com uma realidade humana mais crua — e, justamente por isso, mais próxima da experiência cotidiana. A vida não é perfeita, e nem sempre possui começo, meio e fim perfeitamente organizados.
Por isso, a resolução das narrativas do cinema moderno não depende necessariamente das relações de causa e efeito externas que impulsionavam a ação no cinema clássico e conduziam seus personagens a uma conclusão satisfatória.
Em vez disso, a narrativa pode se desenvolver por meio de uma sucessão de acontecimentos fortuitos, momentos de inatividade e situações aparentemente banais, buscando capturar a natureza cotidiana da existência. Os personagens podem permanecer ambíguos, seus conflitos podem não ser resolvidos e seus objetivos podem nunca ser alcançados.
A mise-en-scène (termo técnico para a colocação em cena e domínio de tempo, espaço e câmera), o trabalho de câmera e a montagem também assumem outras funções que vão além de apenas retirar cenas mal filmadas.
No cinema clássico, esses elementos eram geralmente organizados de acordo com os padrões estabelecidos pelos estúdios e subordinados à clareza da história e da ação narrativa. No cinema moderno, a estética da mise-en-scène, da câmera e da montagem tende a buscar maior realismo, acompanhando histórias interessadas em representar as experiências concretas e os conflitos internos dos personagens.
Daí a valorização de locações externas, encenações naturalistas, planos mais longos, profundidade de campo e uma montagem menos perceptível, que não chama atenção para si mesma.
A Nova Hollywood e a tentativa de conciliar os dois mundos
Embora a estética, a estrutura e a ideologia do cinema moderno tenham sido profundamente influenciadas pelos movimentos da Nouvelle Vague Francesa e por outros novos cinemas do pós-guerra, seus princípios continuaram presentes em diferentes momentos da história.
Um exemplo particularmente importante é a Nova Hollywood, especialmente o cinema produzido a partir do final dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970.

Os diretores da Nova Hollywood foram, em muitos casos, a primeira geração de cineastas americanos formada em universidades. Eles estudaram não apenas os grandes clássicos do cinema, mas também os realizadores e as teorias produzidas pelos movimentos cinematográficos europeus.
Assim, estavam familiarizados com a teoria do autor e aspiravam a ser autores eles mesmos. Enxergavam o cinema como um meio de expressão pessoal e, nesse sentido, carregavam uma forte influência do pensamento moderno.
No entanto, isso não os impediu de trabalhar dentro do sistema hollywoodiano.
Eles ainda precisavam responder às demandas do mercado, da indústria, dos estúdios e do espetáculo que Hollywood representava. E é justamente aí que surge uma das características mais interessantes dessa geração: sua capacidade de combinar os dois mundos.
Eles conseguiram produzir filmes com forte identidade autoral e, ao mesmo tempo, alcançar grandes públicos.

É exatamente essa tensão que torna Star Wars um caso tão interessante.
George Lucas não criou apenas um produto de entretenimento. Ele também construiu uma obra profundamente marcada por suas referências cinematográficas, por suas escolhas estéticas e por sua visão particular de cinema.
Ao mesmo tempo, Star Wars nasceu dentro da lógica de Hollywood, foi concebido para alcançar grandes públicos e rapidamente se transformou em uma das maiores propriedades comerciais da indústria do entretenimento.
É justamente nessa aparente contradição — entre autor e indústria, arte e produto, expressão pessoal e entretenimento de massa — que reside uma das chaves para compreender não apenas Star Wars, mas também boa parte do cinema americano contemporâneo.
Feito toda a viagem de compreensão do papel da saga na historia do cinema, saber que um diretor protocolar como Jon Watts chega para abrir a franquia da saga em uma possível nova trilogia, seria dar para a saga um calibre baixo, uma marcha insuficiente para que engate algum produto ousado e demarque o espaço conquistado e que garanta a continuidade de mais obras serem realizadas. Este é o alerta que deixou críticos reticentes com o futuro da saga que já não é positivo.
O que nos resta, é torcer que o roteiro de Simon Kimberg alcance um momento de inspiração.





