Domingo de manhã tem aquele ritmo próprio, não é? Aquele momento em que o café esfria lentamente na caneca, a Maya tira o seu merecido cochilo esparramada no tapete da sala, e a gente se pega rolando o feed de notícias sem muito compromisso. E foi nessa preguiça dominical que me deparei com uma história que resume perfeitamente a loucura deliciosa que virou o mercado de colecionáveis.
Quem é de 1977, como eu, praticamente cresceu junto com a explosão das action figures clássicas da Kenner. A gente não via aqueles pedaços de plástico como fundos de investimento a longo prazo, ainda mais que eram raros aqui no Brasil. eles eram nossos companheiros de aventuras no quintal, ralados contra o cimento e perdidos no jardim. Hoje, a nostalgia inflacionou o passado. Tem gente pagando o preço de um apartamento em figuras raras lacradas. Mas a verdadeira joia dessa semana não foi um leilão milionário em uma casa de luxo, e sim um achado em um mercado de pulgas na Inglaterra pela bagatela de uma libra — pouco mais de um dólar.
O sortudo em questão encontrou perdido em uma caixa nada menos que um Han Solo da aclamada linha “Power of the Force”, de 1985. Como essa figura faz parte dos famosos “Last 17” — os últimos dezessete bonecos que a Kenner lançou com tiragem limitadíssima antes de encerrar a produção original —, o valor de mercado desse contrabandista, mesmo solto e sem sua câmara de carbonita, bate facilmente a casa dos quinhentos dólares. O sujeito transformou moedas de troco de padaria em uma pequena fortuna.
Mas o que rendeu assunto nos fóruns não foi a parabenização pelo tino comercial do rapaz. Foi a anatomia do boneco.
Sejamos honestos: a Kenner fazia milagres com as limitações da época, mas a precisão anatômica passava longe da preocupação principal. Esse Han Solo específico tem um pescoço tão largo e contínuo que o queixo de Harrison Ford simplesmente deixou de existir na escultura. A comunidade, implacável como sempre, apelidou a figura de “Han Swolo” e “Thyroid Solo” (chega a ser um pecado). Nos comentários, sobrou comparação com o Edgar, o inseto alienígena disfarçado de humano do primeiro Homens de Preto, com o Big Ed daquele reality show de casamentos, e até com uma versão mais jovem do ator John Goodman. O herói coreliano parece menos preocupado em fazer a Rota de Kessel em doze parsecs e mais interessado em não pular o treino de trapézio na academia.
É engraçado refletir sobre isso enquanto administro a Sociedade Jedi. A gente passa anos debatendo o cânone, a jornada do herói, os detalhes da engenharia de uma nave, mas, no fim das contas, a nossa paixão também é sustentada por essas bizarrices adoráveis. Aquele boneco com proporções duvidosas, esculpido há quase quarenta anos, carrega um charme que nenhum colecionável moderno hiper-realista, escaneado a laser e articulado em trinta pontos, consegue replicar.
Talvez seja essa a verdadeira Força dos brinquedos vintage. Eles não são perfeitos, e é exatamente a imperfeição — o pescoço grosso do Han Solo, a capa de vinil que rasga fácil, o adesivo torto do R2-D2 — que nos transporta de volta para uma época em que a imaginação fazia a maior parte do trabalho.
Vou terminar meu café antes que ele vire gelo. E se vocês passarem por algum bazar de usados ou mercado de pulgas hoje, fiquem de olhos bem abertos. Vai que um Han Solo sem pescoço está lá, escondido sob uma pilha de bugigangas, esperando para financiar o seu próximo fim de semana.





