Crônicas de Vos | O Fantasma da Nova República e o Café de Domingo

Crônicas de Vos | O Fantasma da Nova República e o Café de Domingo

Num domingo tranquilo, enquanto a fumaça do café recém-coado sobe e a Maya dorme esparramada no tapete, absolutamente alheia a qualquer conflito intergaláctico, me pego pensando nos rumos da nossa amada galáxia muito, muito distante. É o tipo de devaneio nostálgico que combina com o silêncio da manhã e que, inevitavelmente, sempre encontra abrigo aqui na Sociedade Jedi.

A verdade é que acompanhar Star Wars nos últimos anos tem sido um exercício de paciência e, por vezes, de pura resiliência. Não que a era de George Lucas tenha sido um mar de rosas intocável — as cicatrizes das reações enfurecidas à trilogia prequela ainda estão aí para provar o contrário. Mas, desde que a Disney assumiu o leme, a franquia parece navegar por uma tempestade de escrutínio implacável. A trilogia sequela, em especial, foi dissecada e criticada de formas que fariam um interrogatório do Império parecer amigável.

No meio dessa turbulência, nasceu um hábito corporativo que corta o coração de qualquer fã: o cancelamento sumário de projetos que pareciam apostas certas. A lista de baixas é longa e dolorosa. O Rogue Squadron de Patty Jenkins ficou no hangar, a trilogia de Rian Johnson desapareceu no hiperespaço, e até o Dawn of the Jedi de James Mangold e o filme da Nova Ordem Jedi de Rey parecem estar flertando com a guilhotina.

Mas, entre os destroços dessa guerra de bastidores, um projeto em particular sempre me deixou com o gosto amargo do “e se?”. Falo, claro, de Star Wars: Rangers of the New Republic.

Lembram dessa promessa? Uma série em live-action que correria em paralelo com as aventuras de Din Djarin, focada nos esforços da Nova República para erradicar os remanescentes do Império. Seria o nosso faroeste espacial tático, com Cara Dune e Carson Teva na linha de frente. Contudo, o mundo real colidiu com a ficção. As polêmicas envolvendo Gina Carano nas redes sociais e sua subsequente demissão (seguida de processos judiciais) implodiram o projeto antes mesmo que ele saísse do papel. Rangers foi arquivado, e a promessa daquela patrulha republicana desapareceu como poeira estelar.

Até que, de forma um tanto improvisada, The Mandalorian & Grogu tentou nos servir um prato feito com os ingredientes que sobraram daquela série cancelada.

E, justiça seja feita, o filme entregou um pedaço dessa história. A narrativa central, obviamente, foi dominada pelo nosso clã de dois, mas as sementes plantadas no final da terceira temporada da série floresceram na tela grande. Din estava trabalhando como um contratado independente para a Nova República, e tivemos vislumbres reais de como o novo governo caçava os Imperiais teimosos. Vimos a imponente Coronel Ward (interpretada pela lendária Sigourney Weaver), tivemos a presença do próprio Carson Teva e até o adorado Zeb Orrelios deu as caras. Por alguns minutos, o filme foi o mais próximo que chegamos de ver os “Rangers” em ação.

Mas, assim como o fundo da minha xícara de café agora vazia, a sensação que ficou foi de insuficiência.

A grande crítica a The Mandalorian & Grogu é justa: os trailers prometeram uma integração massiva com a Nova República que, na prática, não se sustentou. O papel de Carson Teva foi frustrantemente pequeno, e os oficiais republicanos só entraram de verdade na jogada no terceiro ato, como a cavalaria que chega no último segundo para salvar o dia. Din Djarin ajudou, sim, mas as promessas grandiosas de Grogu “salvando a galáxia” ao lado das forças da República soaram vazias em retrospecto.

No fim das contas, a tela grande nos deu um aperitivo saboroso daquela era pós-Império, mas não substituiu a refeição completa que uma série dedicada aos Rangers teria sido. E assim seguimos nós, fãs, de domingo em domingo, celebrando as vitórias que chegam aos cinemas, mas sempre com um olho nas estrelas, imaginando as histórias incríveis que se perderam pelo caminho.