Crônicas de Vos | O Império Respira por Aparelhos, Mas o Fantasma Veste Branco

Crônicas de Vos | O Império Respira por Aparelhos, Mas o Fantasma Veste Branco

Domingos têm essa aura particular de calmaria, não é? O sol tímido de outono batendo na janela aqui na Zona Sul, o “plim” do forno elétrico avisando que o café da manhã está pronto, e a Maya me olhando com aquela expressão de quem exige sua ração antes de qualquer outra atividade na casa. É nesses momentos de quietude e rotina que a mente viaja. Hoje, enquanto o café passava, me peguei refletindo sobre a nossa ingenuidade coletiva lá no longínquo ano de 1983.

Quando a segunda Estrela da Morte virou fogos de artifício no céu de Endor em O Retorno de Jedi e os Ewoks começaram a batucar nos capacetes dos stormtroopers, nós realmente achamos que o Império havia acabado. Fim da linha. Corta para os créditos e todo mundo vive feliz para sempre.

Mas a vida real — e, consequentemente, a nossa amada galáxia muito, muito distante — não funciona com essa simplicidade. Você não desliga uma máquina de guerra opressora e gigantesca da noite para o dia. As séries da era da Nova República, desde The Mandalorian até Ahsoka, vêm pacientemente desconstruindo essa ilusão de paz instantânea. E, agora, O Mandaloriano e Grogu nos cinemas jogou uma luz fascinante — e um tanto cômica — sobre o real estado dessas sobras imperiais.

A Vaidade de um Tenente

A cena inicial do novo filme é um prato cheio. Din Djarin e nosso pequeno Grogu invadem uma reunião de simpatizantes saudosistas, comandada por um auto-intitulado “Senhor da Guerra”. Tem stormtroopers, tem AT-ATs e tem aquela arrogância imperial clássica que a gente adora odiar. Mas a verdadeira beleza dessa cena mora nos detalhes. Um fã mais atento (daqueles que a gente tem orgulho de ter acompanhando a Sociedade Jedi) pescou pela insígnia na farda: o tal grande “Senhor da Guerra” nunca passou da patente de Tenente no organograma original.

Pense na gravidade disso. Um tenente! É como se a empresa multinacional falisse e o estagiário assumisse a presidência do que sobrou no escritório abandonado, simplesmente porque todo o resto da diretoria sumiu.

Se um tenente é o peixe grande da vez, liderando grandes operações e fazendo discursos inflamados, a conclusão lógica é uma só: todo o alto escalão que estava acima dele já foi varrido do mapa pela Nova República, preso, ou virou poeira espacial. O Império, naquele momento do filme, está literalmente raspando o fundo do tacho. São apenas burocratas de médio escalão brincando de imperadores. Uma sombra minguada e patética do que já foram um dia.

O Silêncio Antes da Tempestade Azul

Teoricamente, isso significa que a ameaça imperial é muito menor do que parece. Seria reconfortante achar que o perigo acabou ali, com a derrota daquele tenente metido a besta. Mas, assim como o silêncio do domingo às vezes antecede uma semana caótica, nós sabemos que o verdadeiro perigo não faz barulho de blaster em reuniões secretas. A verdadeira tempestade estuda arte, fala baixo e tem pele azul.

Embora alguns de nós (eu me incluo nessa) tenhamos especulado que o Grande Almirante Thrawn faria uma aparição surpresa em O Mandaloriano e Grogu, a ausência dele não diminui o seu peso. Ele não é um tenente de meia-tigela que precisa de autoafirmação. Thrawn é um gênio tático absoluto, e sabemos que ele retornou para a galáxia principal após o seu longo exílio em Peridea ao lado de Ezra Bridger.

O Império pode estar reduzido a cacos e liderado por bagrinhos incompetentes no momento, mas é exatamente de cacos que Thrawn precisa para montar um mosaico letal. Com a segunda temporada de Ahsoka nos aguardando logo ali na esquina, no início de 2027, a sensação que fica é que a Nova República logo vai sentir uma saudade imensa da época em que seu maior problema era um tenente com mania de grandeza.

Bom, a Maya está ficando impaciente e meu café está esfriando. Que a Força os acompanhe nesta semana que se inicia!