Às vezes eu me pego olhando para a minha prateleira de livros, aquela seção poeirenta onde os lombos exibem o selo dourado de “Star Wars Legends”, e sinto uma pontada de nostalgia misturada com um leve trauma psicológico. Para quem chegou agora na galáxia, através do Disney+ ou das sequelas, existe uma ideia de que a vida de Han e Leia foi destruída pela trilogia recente. Mas, como um velho entusiasta que sobreviveu aos anos 90 e 2000 devorando páginas e mais páginas do antigo Universo Expandido, eu preciso lhes dizer: o sofrimento dos Solo é uma tradição muito mais antiga e, ouso dizer, bem mais cruel.
Houve um tempo em que acreditávamos no “felizes para sempre”. Han e Leia tiveram três filhos: os gêmeos Jaina e Jacen, e o caçula Anakin (sim, criatividade para nomes nunca foi o forte da família). Parecia o cenário ideal para uma nova era de paz, até que os autores decidiram que ser um Solo era basicamente um convite para o desastre. Primeiro, perdemos o jovem Anakin na guerra contra os Yuuzhan Vong. Depois, Jacen — um garoto que amava animais e tinha uma visão sensível da Força — foi submetido a torturas que fariam um Inquisidor pedir demissão por excesso de crueldade.
Mas o verdadeiro “plot twist” veio anos depois, na série Legacy of the Force. E aqui entra a parte curiosa que muitos fãs novos desconhecem: nós, o público, fomos cúmplices. Em 2006, a Lucasfilm lançou um concurso chamado “Darth Who”. Isso mesmo, um reality show para batizar o novo Lorde Sith. Milhares de fãs votaram entre nomes como Darth Paxis e Darth Judicar. O vencedor? Darth Caedus. Na época, ninguém sabia ao certo quem seria o dono do título — muitos apostavam na Jaina —, mas o destino caiu sobre Jacen Solo.
Transformar Jacen em um Sith foi uma manobra ousada e, para muitos de nós, dolorosa. Para justificar essa queda, os autores fizeram o que chamamos de “retcon” (a famosa continuidade retroativa), transformando a mentora de Jacen, Vergere, em uma vilã secreta. Isso jogou por terra filosofias profundas estabelecidas em livros brilhantes como Traitor, de Matthew Stover. Jacen não era mais um Jedi cinzento buscando equilíbrio, ele era apenas mais um peão do Lado Sombrio, levando sua própria namorada, Tahiri, para o abismo com ele.
Se você achou triste ver o fim de Ben Solo em A Ascensão Skywalker, saiba que a versão “Legends” foi muito mais sombria. Não houve redenção romântica ou um beijo final. Jacen foi morto por sua própria irmã gêmea, Jaina, em um duelo que encerrou uma das eras mais densas da literatura de Star Wars. No fim das contas, seja no cânone atual ou nas lendas do passado, parece que o destino de qualquer filho de Han Solo é carregar o peso da galáxia nas costas até que ela, inevitavelmente, o esmague.
Darth Caedus pode não ser mais oficial, mas ele vive na nossa memória como o lembrete de que, em Star Wars, o drama familiar é a única força realmente absoluta.




