Crônicas de Vos | A Balança da Força: Quando Tentamos Rankear o Imensurável

Crônicas de Vos | A Balança da Força: Quando Tentamos Rankear o Imensurável

Outro dia me peguei numa daquelas discussões cíclicas que sustentam a amizade de qualquer fã de Star Wars há quarenta anos. A pauta era simples, ou pelo menos parecia: quem é o Jedi mais poderoso da história canônica?

É engraçado como a resposta para essa pergunta muda dependendo de quando você nasceu. Para quem estava lá em 77 ou 80, o poder era algo místico, quase religioso. Yoda não precisava dar piruetas com um sabre de luz para ser o grão-mestre; bastava levantar um caça X-Wing do pântano com um suspiro cansado e um olhar de “eu avisei”. Aquilo era poder. Era o domínio total sobre a realidade.

Mas os tempos mudaram, a Ordem caiu, se levantou, caiu de novo, e a definição de força foi ganhando anabolizantes narrativos.

Vi recentemente uma lista circulando por aí (do pessoal do ComicBook) tentando colocar ordem nessa casa bagunçada. E é fascinante observar como a nossa percepção de “poder” é uma mistura de nostalgia com feitos absurdos.

Veja o caso de Anakin Skywalker. O Escolhido. A gente sabe que, em termos de “potência bruta do motor”, ele ganhava de qualquer um. O cara era uma usina nuclear instável. Mas poder é só explodir coisas? Se fosse, a Estrela da Morte seria um Jedi. Anakin tinha a força de um tsunami, mas a estabilidade emocional de um adolescente sem Wi-Fi. Ele perdeu para a arrogância (e para o terreno alto) mais de uma vez. Isso o faz menos poderoso ou apenas menos sábio?

Aí olhamos para Obi-Wan Kenobi. Ele nunca foi o mais forte no papel. Ele não tinha a contagem de midi-chlorians do Anakin nem a ginástica do Yoda. Mas o homem sobreviveu. Ele derrotou o Escolhido no auge da raiva, derrotou Maul (fatiado e depois velho), derrotou Grievous… A força do Obi-Wan era a resiliência. Ele era a defesa perfeita. Numa lista de “quem bate mais forte”, ele perde. Numa lista de “quem volta vivo para casa”, ele é top 3.

E, claro, temos que falar da nova geração. Rey Skywalker entra na sala e a discussão esquenta. Muita gente torce o nariz, mas no cânone, ela é uma esponja de aprendizado. O que Luke demorou anos para entender, ela baixou o download via Díade na Força. É um poder diferente, mais cru, mais instintivo. E falando em Luke, o Grand Master do Legends era um deus, mas o do cânone atual? Ele projetou sua imagem através da galáxia para vencer uma batalha sem encostar um dedo no sabre. Se isso não é o ápice do “caminho Jedi” — defesa e conhecimento, nunca ataque —, eu não sei o que é.

Não podemos esquecer da ala “combate puro”. Mace Windu. O homem que olhou para o Imperador e disse “você está preso”. Ele venceu Palpatine no braço (antes da intromissão do Anakin). Se poder fosse medido apenas em duelo de sabre, Windu estaria sentado no trono da lista.

No fim das contas, essas listas de “Top 10” são como tentar segurar fumaça com as mãos. Colocamos Yoda no topo pela sabedoria, ou Ahsoka Tano pela capacidade de ver além do dogma Jedi? O poder em Star Wars não é linear, não é um status de RPG onde o nível 99 vence o nível 98.

A beleza da franquia, para mim, sempre foi essa: o Jedi mais poderoso não é necessariamente aquele que derruba um Star Destroyer com o pensamento (embora o Starkiller fizesse isso e fosse incrível). O mais poderoso é aquele que entende que a Força não é uma arma, é um aliado.

Mas, se alguém me perguntar no balcão da cantina, eu ainda aposto minhas fichas no baixinho verde de 900 anos. Afinal, tamanho não é documento.


Rankear Jedi é um exercício de futilidade divertido. O cânone está sempre expandindo, trazendo personagens da Alta República ou aprofundando os que já conhecemos. Mas seja você fã do estilo “tanque de guerra” do Anakin ou do estilo “monge zen” do Luke, o importante é que a Força continua nos dando material para debater até as duas sóis de Tatooine se porem.