Os Últimos Jedi: A caverna sombria do fandom de Star Wars

Os Últimos Jedi: A caverna sombria do fandom de Star Wars

********** ESTE POST CONTÉM SPOILERS *********

“Você deve desaprender o que aprendeu”: Nada sintetiza melhor Star Wars – Os Últimos Jedi do que esta fala do Mestre Yoda. Nunca um episódio de Star Wars pareceu ter causado tanta controvérsia, que pode ser vista nos grandes sites de pesquisa de público, como o Rotten Tomatoes, o IMDB e o Metacritic. Enquanto o filme é aplaudido pelos críticos e alcança números estratosféricos no box office, é rebaixado pela audiência (ressalvado o uso de bots por haters de convicções políticas). E qual será o motivo? Vamos falar a língua dos fãs.

Começo de Dezembro. A internet fervilha com trailers, entrevistas, e as teorias parecem estar mais consolidadas. Análises frame a frame de visões da Força, de paralelos entre as trilogias povoam as redes sociais. Sei disso porque eu, Loane, era uma daquelas que seguia teorias de defendia-as de forma ferrenha. Peguei muitos spoilers após a estreia em países da Europa, mas não me importei porque eu pensava que eles eram falsos, e aí veio o choque.

Parecia que tudo o que eu tinha imaginado para o filme tinha ido por água abaixo. Uma revelação emocionante? Um treinamento digno de quem faria firulas com o sabre? Parece que eu estava errada. Mas eu tinha que assistir com meus próprios olhos até porque (pra minha sorte) o ingresso já estava comprado e não tinha mais volta.

No cinema, entrei na caverna escura que me mostraria o que havia ido buscar: Um bom filme de Star Wars. Como uma boa Jedi, limpei minha mente dos medos, dos spoilers. Desaprendi o que aprendi, incluindo as teorias e o que havia visto e lido nas entrevistas. As duas horas e meia passaram rápido como 15 minutos, de tão divertidas que foram, e nem me importava mais com quem eram os pais da Rey, ou então quem o Luke deveria ser na minha mente egoísta e apegada. Me deixei levar pela arte, e retirei dela a Força que eu precisava.

Mas quem estava com expectativas exageradas teve sua visão coberta pela sombra do Lado Negro. Logo vêm o medo, a raiva, o ódio e o sofrimento. E esse ódio flui em achar que a trilogia e a saga não tem mais salvação a não ser que um milhão de pessoas assinem uma petição pra retirar o filme do cânon. A resposta pra tudo isso está no arco de Luke Skywalker, que não deveria ser tão odiado.

Não temos a fala certa ainda mas uma das lições de Luke sobre porque os Jedi deveriam acabar é porque começou-se uma idolatria aos Jedi na galáxia, onde os Jedi eram perfeitos e que não poderiam nunca falhar. Você vê uma coincidência em tudo isso? Toda a expectativa em torno da volta de Luke Skywalker para os cinemas era de que veríamos o último Jedi, o mais poderoso da galáxia, que derrotou o Império, que salvou Anakin, que destruiu a primeira Estrela da Morte. E vemos um Luke desiludido, falho, um Luke Skywalker humano.

Sim, ele pensou em matar Ben Solo. A mesma impulsividade que o fez não desistir de Anakin também o levou a sua ruína. Ao tentar proteger a galáxia de um novo vilão, fez com que Kylo Ren nascesse. Ao olhar seu sabre verde ligado, Luke cai em si, numa referência a quando ele quase matou seu próprio pai em O Retorno de Jedi por praticamente o mesmo motivo. Mas era tarde demais. Ben estava acordado.

Ao ser confrontado por Rey, Luke não tinha mais porque esconder a história do seu fracasso e não tinha mais o que fazer a não ser ver sua aprendiz ir embora na nave que um dia trouxe diversão e heroísmo a ele, provando ao seu coração mais uma vez que ele não tinha mais como ser um Mestre Jedi. Se ele falhar com todos os aprendizes, a escuridão se multiplicará.

A única solução que ele vê é queimar os antigos livros Jedi, queimando assim a história que o teria decepcionado. E aí vem a grande lição proferida pelo poderoso fantasma da Força de Mestre Yoda: “O fracasso é o melhor professor”. E se tem um tema principal em Os Últimos Jedi, este tema é a aprendizagem pelo fracasso, e isso permeia todos os personagens:

Começamos o filme com o Comandante Poe Dameron, o melhor piloto da Resistência, em sua X-Wing com o plano de destruir os canhões do destróier Encouraçado. Mesmo com bombardeiros destruídos e a General Leia Organa, que tem muito mais experiência de batalha, dar ordens para que Poe bata em retirada justo com as naves restantes, ele continua a missão pois só restava um canhão para explodir, mesmo que o tempo necessário para BB-8 consertar o sistema de armas da X-Wing fizesse com que a Primeira Ordem tenha tempo para destruir mais naves e bombardeiros. Tudo porque ele queria ser o herói do dia. Resultado: Rebaixado para Capitão.

Finn, cuja última lembrança é de quando, ao tentar salvar Rey, teve suas costas cortada pelo sabre de Kylo Ren, tenta como sempre fugir por sua vida e guardar Rey num lugar seguro, sem se importar com a Resistência que precisaria de sua ajuda para um bem maior. Por mais que Finn tenha escolhido não ser mais Stormtrooper pra não matar pessoas inocentes, seu medo de morrer nas mãos da Primeira Ordem fez com que ele só pensasse em fugir. Ele só entrou na luta pra salvar a Rey de Kylo Ren, tanto que mentiu no quartel-general pra que Han Solo pudesse levá-lo para a Base Starkiller em O Despertar da Força. Ele não se importava mais com ninguém além de si mesmo e de Rey, tanto que na primeira oportunidade ele tenta sair em um pod de escape. Mas Rose o encontra.

Rose é uma nova personagem que segue a premissa de que uma “ninguém” pode ser uma heroína. Abalada pela morte de sua irmã no bombardeio, ela não consegue entender como um “importante” (como chamou Han Solo) na Resistência pode querer fugir, enquanto ela, uma mecânica, faz o seu melhor pra que as naves estejam em bom estado. No decorrer do filme, descobrimos que ela, mais do que ninguém, sabe como o simples fato da Resistência existir impacta os oprimidos pela Primeira Ordem. Ela também fracassou ao acreditar que o plano mirabolante que ela e Finn inventaram iria dar certo, mas foi um dos fatores principais pra que ele aprendesse a lição do dia.

E por falar de personagens novos, vamos falar da vice-almirante Holdo. Vale pontuar que ao ser apresentada à Resistência. Poe Dameron não acredita que ela seja o vice-almirante Holdo que ele tinha ouvido falar. Como no inglês os artigos não tem gênero, aparentemente há a insinuação de que Poe esteja surpreso de que ela seja uma mulher e por isso tentaria testá-la. Muitos fãs se perguntam o porquê de ela não contar logo seu plano para Poe. Resposta: Poe foi rebaixado para Capitão, e sendo vice-almirante, ela não pode contar planos militares secretos a um capitão, com o risco de atrapalhar a missão, o que acaba acontecendo quando Poe descobre tudo e conta pra Finn.

Este contando pra DJ, outro personagem novo. Esse é daqueles que “só chega pra atrapalhar”. É o clássico “gambler”, que combina um preço mas vai por quem paga mais. Pobres Finn e Rose, ele era o único em que podiam confiar naquele momento. Há a possibilidade de ele voltar no Episódio IX, mas eu não vejo função pra ele além de ser um Lando da vida que descumpriu o acordo mas depois voltou redimido. Pelo menos Lando tinha motivos mais importantes (proteger os habitantes de sua cidade) pra “trair” Han e Leia em O Império Contra-Ataca.

Outra personagem que a meu ver não vejo por que retornar é a Capitã Phasma. Tudo bem, Finn se deu mal na última luta contra Kylo Ren, é justo que ele ganhe nessa. Mas, particularmente eu não senti dificuldade nessa luta, mas isso depende de fã pra fã. Enfim, Phasma é derrotada e mais uma vez parece que ela morreu. Mas, se ela voltar no episódio IX, espero que ela venha mais resiliente, que eu sinta mesmo dificuldade em ver ela lutar, e que não seja só uma luta de 3 minutos porque pra mima personagem tinha muito potencial. Pra quem é a Boba Fett da trilogia sequel, até que ela fez muito, mas eu esperava bem mais da luta Finn x Phasma. Segundo o diretor Rian Johnson, não cabia mais espaço para ela.

Então não deve ter cabido espaço para o R2-D2, também. Eu esperava que o R2 ajudasse a Rey em algum ponto, mas parece que a Disney quer mesmo empurrar goela abaixo que o herói droide da vez é só o BB-8. Nada contra, acho fofinho, mas era melhor até o R2 ter ficado hibernando do que fazendo pouca coisa, até porque, apesar de no mundo de Star Wars ele ter “sentimentos”, dróide não é gente, e o R2 parece gostar de ser o herói, salvando a pele de muitos nas trilogias anteriores. A cena em que R2 mostra aquele holograma da princesa Leia para Luke é bem fanservice, mas cumpriu seu objetivo. Mas o R2 fez só isso e uma olhadinha no computador da Millenium Falcon em outra cena bem pequena e olhe lá. Se querem reclamar de um personagem que não teve oportunidade, reclamem do R2! Ou do BB-9E, que definitivamente só foi criado pra vender brinquedo.

Não reclamem, por exemplo, de Leia Organa, que, convenhamos, mostrou novamente que muitas vezes o instinto vale mais do que qualquer treinamento. Achei o CGI dessa cena meio fraco, mas, parte da possível última aparição de Leia Organa em tela ser usando a Força de um jeito nunca visto é sensacional! E pensar que poderiam ter matado Leia ali nessa cena e regravado todo o resto do filme, mas não, decidiram guardar e honrar a última performance de Carrie Fisher, que apareceu nas primeiras e nas últimas cenas do filme, sempre com o ar de elegância de uma princesa, mas a força e a determinação de uma general de guerra. A passagem de bastão para Poe Dameron foi sutil mas poderosa.

Mas infelizmente, ela terminou sem esperanças em Kylo Ren, que começa ainda conflitante entre o lado negro e a luz (quem nunca?), esculachado por Snoke e relutante em matar sua mãe. Quando Rey se entrega como prisioneira e Kylo ouve o discurso de seu Supremo Líder, ele percebe que Han Solo estava certo, que ele só queria usá-lo. Sem saber, cumpre a regra de dois, matando seu antigo mestre (que não percebe a traição por estar cego em sua própria arrogância), e tomando a decisão de ficar em seu lugar, dando um belo f*da-se à tentação da luz.

E isso acaba decepcionando Rey, que, segundo Snoke, “tem o espírito de um verdadeiro Jedi”, que viu certa luz no pior dos homens, mas se arrependeu do resultado de suas ações. Rey também fracassou. Se deixou levar por visões aparentemente verdadeiras, mas manipuladas pelo próprio Snoke. Em um momento, ela pensou que tinha cumprido seu aparente destino, mas não. A semelhança do atos de Rey com os de Luke endureceram ainda mais o coração de Kylo, que agora tem todo o poder da Primeira Ordem, e pode finalmente ser o que tanto sonhou: Tão ou mais poderoso que Darth Vader.

E Rey? Continua procurando seu lugar nisso tudo, pensando que não vem de ninguém especial, de nenhum lugar especial. Tenho ainda dúvidas quanto a veracidade das visões que eles tiveram. Já que a “visão” da Rey se mostrou falsa, a de Kylo também deve ser. O problema não é a Rey não ser filha de ninguém, eu gosto do conceito de que uma “ninguém” possa ser uma heroína, tanto que temos a Rose e tantas outras personagens no universo de Star Wars, o problema é que Rey tem a maioria dos paralelos com os Skywalkers, paralelos esses que foram estabelecidos nas prequels (que, querendo ou não, são canon), e fugir disso só pra quebrar a expectativa é muito medíocre.

Esse é ainda o único ponto que ainda me incomoda no filme não porque quebrou a expectativa, é porque, se for realmente verdade, ameaça a continuidade da Saga Skywalker como uma saga de família. Fazer um “eu sou seu pai” às avessas foi genial mas não teve exatamente o mesmo impacto. Usar o parentesco de Rey como plot twist é muito querer emular o mesmo sentimento que os fãs tiveram depois do Império Contra-Ataca.

Agora o último Skywalker é um vilão que já escolheu seu caminho deliberadamente e que provavelmente vai morrer no IX, isso se não inventarem um arco de redenção do nada (o que também seria muito querer emular o final de O Retorno de Jedi). É esse o último legado que os Skywalkers vão deixar na galáxia? Pelo menos Rian Johnson deixou algumas brechas pra que J.J Abrams mude isso, caso queira.

E lembre-se: Os Últimos Jedi é um filme de meio, de 2º ato. Nada deve ser respondido completamente até o final do episódio IX. E se prestar atenção, tudo voltou a ser como era no final do Despertar da Força, só que com os personagens ainda mais fortes: Kylo Ren é o Supremo Líder da Primeira Ordem, Rey é a última Jedi viva, Finn é um herói da Resistência e Rose também terá um espaço maior, possivelmente tendo Poe como general. Leia Organa ainda está viva na Saga e veremos o que farão com ela. Luke Skywalker é um fantasma da Força e provavelmente um dos mais poderosos, podendo estar agora em vários lugares mais rapidamente. Como o próprio Luke disse: “A guerra está só começando”.

E, convenhamos, o fandom precisava desse choque de realidade para ser peneirado, e para mostrar sua verdadeira face. Infelizmente estamos vendo uma face ácida, cheia de ódio, que não consegue aceitar que o que passou passou, mas o que ainda não passou pode ainda ser aprimorado. É hora de abrir a mente e se divertir com o Episódio VIII, afinal, é pra isso que Star Wars existe.


Adendos especiais:

  • Gostaria muito que a Holdo sobrevivesse ao “impacto” com a Supremacy, isso facilitaria a construção do que fazer com Leia e a passagem de bastão para Poe de forma oficial.
  • Uma das coisas que gostei muito é a quebra da expectativa do fato de que não há um relacionamento amoroso definido como havia nos filmes de meio das duas outras trilogias, e é uma inovação muito bem vinda. Realmente espero que a trilogia acabe demonstrando que um amor romântico saudável vem de uma amizade sincera aonde um se importa com a proteção do outro e vice-versa, pois em tempos de tantos relacionamentos abusivos, o mundo necessita de um exemplo assim.
  • A luta entre Luke e Kylo é uma alusão à luta entre Obi-Wan e Vader em Uma Nova Esperança, mas ainda mais significativa. Vemos que Luke finalmente aprendeu a regra de nunca atacar, somente defender, e graças à projeção da Força, sua morte foi como a de seus outros dois mestres: Lutando como Obi-Wan, e em paz como Yoda.