Artigo | Produções Adicionais ou Regravações: Afinal, qual é o Problema?

Artigo | Produções Adicionais ou Regravações: Afinal, qual é o Problema?

Muita gente não tem muita ideia do que ocorre numa produção de cinema quando citamos que algum filme está nas gravações adicionais, ou no caso, o peso que seria quando se ouve que o produtor teve que intervir na produção pra mudar coisas que não estavam de acordo com o que os investidores querem.

Em inúmeros filmes temos alguns exemplos do quão complicado é fazer filmes quando os produtores são figuras nada flexíveis e já tem em mente o que querem.

Ao ver os extras de “Hellboy”, Guilhermo Del Toro – numa entrevista irreverente na Comic Con – revela a dificuldade de convencer os produtores da Universal e Sony (Lawrence Gordon, Lloyd Levin e Mike Richardson) a realizarem um filme onde o protagonista pareça um demônio. Alguns perguntaram se o herói não poderia parecer com o demônio só em alguns momentos do filme. Del Toro assumiu bater o pé até que se fincasse um filme o mais próximo possível dos quadrinhos.

John McTiernan, um dos gênios de filmes de ação como “Predador” (1987), “Duro de Matar” I e III (1988/1995) e “O Último Grande Herói” (1993), é outro que passou por uma série de problemas com os produtores da Touchstone quando rodou no final dos anos 90 o “O 13º Guerreiro”. O filme demorou mais tempo que o comum e de 80 milhões, o longa saltou para 160 milhões de custo e ainda passou por vários cortes finais com intervenção dos investidores que deixaram McTiernan irritado a ponto de que pedisse que esquecessem que este é um filme de sua autoria.

Cena de "O 13º Guerreiro", de John McTiernan.

Cena de “O 13º Guerreiro”, de John McTiernan.

Aos filmes que deveriam ser malditos, não é diferente. “O Exorcista – O Início”, de 2004, dirigido por Renny Harlin era um projeto inicial de Paul Schrader, gênio total incontestável conhecido por ser o roteirista de “Taxi Driver” (1976) de Martin Scorsese. Abro aqui um adendo recomendando cinéfilos que leem nosso site que procurem ver filmes do Schrader, alguns talvez já tenham visto seu filme mais famoso, “A Marca da Pantera” (1982) e “Mishima” (1985) que são pérolas. Enfim, o filme teve um Schrader desligado como diretor e com o fracasso de crítica e público, ainda tiveram a coragem de chamar Paul para realizar um corte com as primeiras datas que ele dirigiu e algumas outras coisas que Renny Harlin havia dirigido. O resultado final disso foi o filme “Dominion” (2005) que mais parece um Frankstein, mas no final se vale de ser melhor que a versão de Harlin.

"O Exorcista - O Início", de 2004, dirigido por Renny Harlin

“O Exorcista – O Início”, de 2004, dirigido por Renny Harlin

Grandes diretores independentes também foram vítimas de intervenções de produtores, no caso, “Duna” (1984) na qual a Universal se juntou a Di Laurentis e produziram este, que é considerado um dos piores filmes de todos os tempos. Lynch costuma soltar farpas quando lhe perguntam desta obra na qual foi remontado várias vezes. Atesto esse espírito arredio, pois Lynch é um diretor extremamente paciente em todas entrevistas que dá e nunca o vi perder as estribeiras pra falar de algo. Em seu livro, “Em Águas Profundas”, existe um capítulo inteiro ou dois em que ele toma esta questão como objetivo de superação, já que o livro não é sobre cinema, mas sim sobre meditação.

“Duna” (1984), dirigido pelo diretor icônico David Lynch

“Duna” (1984), dirigido pelo diretor icônico David Lynch

Recentemente tivemos um caso parecido. O filme “Quarteto Fantástico” (2015) da ainda bizarra união Fox/Marvel foi feito com um diretor contratado Josh Trank, que havia agradado ao público com seu filme “Poder Sem Limites” (2012). Diziam as más línguas que o filme só foi feito para que a Fox não perca seus direitos sobre a Marvel e assim fizeram um longa onde tiveram que refilmar muitas cenas e a edição passou por um parto até sair um filme que se não chamasse “Quarteto Fantástico”, capaz que teria menos rejeição.

"Quarteto Fantástico" (2015) de Josh Trunk

“Quarteto Fantástico” (2015) de Josh Trank

A nós, que gostamos de cinema, é importante não se deixar levar pelo rating dos filmes na recepção de críticos e públicos para desvincular um péssimo projeto num diretor promissor. O maior exemplo de compreender a máquina industrial de cinema hollywoodiana é uma comédia de Woody Allen chamada “Dirigindo no Escuro”. O filme conta história de um produtor que precisa contratar um diretor pra um filme e decide, por insistência de sua esposa, contratar o ex-marido dela, um diretor esquecido e atrapalhado que mantém métodos peculiares para se realizar um filme. A situação piora quando o diretor adquire doenças psicossomáticas que o tornam cego e que nem assim abandona o projeto. Embora seja uma comédia, o filme contém uma ambientação de pré-produção e de produção convincentes para os que não sabem como funciona o cinema de produtor executivo, e não um filme de um diretor que seja autor.

Nesta semana tivemos uma notícia tensa. Rumores apontam que 40% do filme Rogue One serão refilmados. No cinema, quando os filmes são rodados, constantemente a equipe precisa ir numa sala de projeção em períodos datados para que o produtor executivo olhe se tudo ocorre como o previsto, pois o diretor é apenas um contratado. No caso, a famigerada Kathleen Kennedy, Allison Shearmur (Jogos Vorazes: Em Chamas, Cinderela), John Knoll, Simon Emanuel (O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Velozes e Furiosos 6) e Jason McGatlin (Tintin, Guerra dos Mundos).

O diretor do longa, pra quem não sabe, é Gareth Edwards que fez “Monstros” (2010) e o “Godzilla” (2014) – que surpreendeu quem não esperava muito. Particularmente, sou muito fã de Monstros. Edwards respondeu a inúmeras entrevistas de que o filme seria ambientado em guerra. Primeiro, na Star Wars Celebration de 2015, foi lançado um teaser de anúncio da produção, mostrando um Tie Fighter voando em direção a um horizonte tomado pela Estrela da Morte; mês passado, o teaser trailer oficial nos confirma essa atmosfera pesada e muitos fãs ‘old school’ já começaram a se sentir em casa com troopers originais, naves e um argumento que todos sabem que se trata de uma missão suicida.

"Monstros" (2010) de Gareth Edwards

“Monstros” (2010) de Gareth Edwards

Quando vaza na mídia que um filme precisa ser refeito, é uma situação extremamente delicada. Obviamente, o diretor não fez a lição de casa e o filme tem a intervenção do produtor executivo, no nosso caso o nome a intervir é de um produtor que também dirige. Para uns isso é um alívio, mas para outros, demonstra uma posição da Disney de que se o filme derivado poderia ser destinado à uma fatia de seu público, com essa postura de intervenção fica nítido que não era só “O Despertar da Força” que tinha como alvo todo tipo de público. Rogue One agora sai desta classe de filme segmentado para entrar numa possível categoria de caça níqueis.

Gareth Edwards já demonstra com apenas dois filmes, o tom denso que poderia nos trazer se o filme não tivesse esta intervenção e, com uma notícia dessas, algumas especulações acerca do universo Star Wars já caem por terra.

Quem aqui já leu rumores de que Guilhermo Del Toro citado acima demonstra vontade de dirigir um filme sobre Jabba The Hutt? Óbvio que este texto se vale de especulações e observações dos caminhos da cine série, porém, com notícias como estas, nos quebra a expectativa de ousadias autorais ou de filmes destinados à diferentes faixas etárias. Isso também nos deixa inseguros de como seria um filme sobre Han Solo, afinal, o personagem é um contrabandista. Pergunto-me se a Disney, com estas tesouradas, não queira maquiar o ato do contrabando com coisas mais leves que não firam a ética da família. O diretor perde parte da autonomia, os processos de conferir o material filmado começa a aumentar a frequência de acompanhamento dos investidores e isso tende a atrasar mais ainda ao filme.

Todo este texto foi na verdade um passeio por filmes que padeceram com estas auditorias, embora acredite que no caso de Star Wars, isso tenha um tom menos letal para nós fãs, porém, com uma tristeza dos amantes de cinema que acreditavam na possibilidade de que o filme carregasse a marca do diretor, e por consequência, da autoria e conivência com o público que por anos esperou por um filme que tenha amadurecido junto com a primeira geração de fãs.

Texto: Prof.º Msc Vebis Jr
Edição: Beatriz Peixoto